Jovens que acessam a internet em excesso podem sofrer com sua saúde mental

 

Não é novidade para ninguém aquela velha história de que qualquer coisa em excesso faz mal. Infelizmente, o uso da internet não está livre disso. Prova disso veio com um novo estudo feito no Reino Unido pelo Instituto de Política de Educação, que encontrou uma ligação entre o uso “extremo” da rede por adolescentes – com destaque em específico para as mídias sociais – e certos problemas com sua saúde mental.

Antes que você comece a se preocupar, o estudo não é conclusivo em apontar os efeitos do excesso da internet e problemas mentais. No entanto, ele aponta que o uso contínuo da rede pode indicar que aquela pessoa tem maiores chances de sofrer com algum tipo de insatisfação em sua vida. Jovens que gastam três horas ou mais online mesmo em dias de escola, por exemplo, têm duas vezes mais chances de relatar algum problema com sua saúde mental.

O uso contínuo da rede pode indicar que aquela pessoa tem maiores chances de sofrer com algum tipo de insatisfação em sua vida

Já os verdadeiros usuários extremos, que passam seis horas ou mais na internet, reportaram serem vítimas de bullying em 17,8% dos entrevistados – quase três vezes mais do que os 6,7% relatados por usuários moderados de internet. Não limitados a isso, os adolescentes que chegam a esses níveis também relataram uma satisfação de vida média de 6,59/10 contra uma média de 7,4/10 dos moderados.

Novamente, é importante frisar que o estudo não aponta o uso excessivo de internet como a causa de tudo. Muito pelo contrário: em vários casos, seu uso foi notado como benéfico para várias pessoas. Justamente por isso, contudo, é que essa ligação pode estar se formando.

Em meio a tudo isso, a mensagem que fica é uma maior atenção aos casos de uso excessivo de internet. Caso ele exista, é sinal de que esse jovem possa estar precisando de ajuda.

Precisamos Discutir A Saúde Mental Das Crianças Brasileiras

Joyce Capelli, Diretora Executiva e Presidente da Inmed Brasil

Pouco se fala, mas a saúde mental de nossas crianças e adolescentes é assunto que precisa ser mais discutido, abordado, divulgado. Um local onde se pode bem observar o surgimento de possíveis problemas cognitivos, emocionais, psicológicos e psiquiátricos é a escola pública.

Refiro-me à escola publica porque, além de ser meu campo de trabalho, abriga mais de 80% dos alunos brasileiros, um contingente de aproximadamente 50 milhões de crianças e adolescentes.

Pesquisas indicam que a promoção da saúde mental em escolas produz benefícios de longo prazo para os jovens, incluindo melhor desenvolvimento emocional, social e até um desempenho acadêmico mais eficiente.

As pesquisas também demonstram que uma em cada quatro pessoas são afetadas por transtornos mentais ao longo da vida. A maioria desses transtornos se desenvolve na infância e adolescência, sendo que 50% têm início antes dos 14 anos.

O Instituto Nacional de Psiquiatria do Desenvolvimento aponta que as taxas de transtornos mentais na infância alcançam 14% das crianças, mas menos de 20% delas são diagnosticadas e tratadas.

Não há nas escolas do Brasil políticas públicas para promover a educação em saúde mental e emocional, com formação e informação para professores e pais se conscientizarem e aprenderem a lidar com este desafio, visando identificar, encaminhar para acompanhamento médico ou até prevenir psicopatologias.

É muito importante promover formação para todos os funcionários escolares sobre a saúde mental e considerar as escolas como parte de uma rede mais ampla, unida com outras partes interessadas e instituições envolvidas na saúde mental das crianças e adolescentes nas comunidades locais.

Há décadas dirijo uma organização sem fins lucrativos e me envolvo nas discussões da sociedade civil organizada. Nossas ações têm como base as escolas das redes públicas de ensino, pois é de lá que promovemos ações que efetivamente transformam para melhor as nossas comunidades.

Realizamos, há alguns anos, em comunidades do Rio de Janeiro e outros Estados, um programa que permitiu um breve exemplo da importância de abordarmos as angústias, medos e perspectivas das crianças. As ações aconteceram em comunidades onde meninos e meninas viviam (e ainda vivem) em contexto de exclusão social e violência.

Inicialmente, fizemos uma capacitação para os professores entenderem o contexto emocional das diversas faixas etárias e como os desvios podiam ser percebidos por meio da análise dos sonhos.

Paralelamente, realizamos oficinas sobre a importância do trabalho com a autoestima dos alunos e como ajudá-los a enfrentar dificuldades.

Nas escolas das comunidades, semanalmente, as crianças foram reunidas em grupos para desenhar e escrer sobre seus sonhos mais recentes e recorrentes. As crianças também responderam a questionários socioeconômicos e culturais.

Esta oportunidade permitiu aos alunos dividir com professores e colegas seus sentimentos e sensações, o que nunca havia ocorrido na sala de aula. A atividade tornou-se ferramenta pedagógica importante para os professores descobrirem novas maneiras de ajudar seus alunos em caso de dificuldade. Ao contar, desenhar e escrever seus sonhos, os alunos resgatavam questões de seu dia a dia e redimensionavam a realidade que os cercava.

O trabalho revelou que há ausência de figuras positivas e de modelos para as crianças, além de observar o enfraquecimento das figuras masculinas. Mesmo quando a criança sonha com um ídolo, a projeção favorável não se concretiza no sonho.

Foi uma iniciativa que trouxe excelentes resultados no curto espaço de tempo de sua duração, pois permitiu que as crianças, a partir da individualidade de cada contexto emocional, começassem a interagir de maneira diferente com seus pares, família e sociedade.
Com este projeto, abrimos espaço para a reflexão e discussão de um enorme problema que assombra os jovens e que sempre fica do lado de fora dos muros das unidades de ensino (exceto quando uma bala perdida inadvertidamente invade o perímetro de convívio escolar).

Há outras iniciativas que acontecem pelo mundo afora: na Europa, em 2011, foi lançado um Pacto pela Saúde Mental e o Bem-Estar (European Pact for Mental Health and Well-Being), para inserção emergencial de conteúdos sobre saúde mental nas atividades curriculares e extracurriculares das escolas, além da sensibilização de profissionais da saúde e da educação. Enquanto isso, no Canadá, esse tema já integra o currículo regular das escolas.

Há mais exemplos de boas práticas: como o Young Mind, na Noruega; o Unidos Fazemos a Força: Juntos contra o Bullying, na Itália; a legislação sobre serviços especializados disponibilizados pelos municípios para as escolas pré e obrigatórias, na Islândia e União Internacional para a Promoção da Saúde e Educação (UIPES), entidade internacional.

Precisamos alardear a necessidade de discutir a promoção da saúde mental e emocional nas escolas, para disseminar por todas as nossas redes de ensino este tema tão primordial para garantir o pleno desenvolvimento das crianças e dos adolescentes no Brasil.