Samba e luta antimanicomial: bloco ‘abre-alas’ para folia em Campinas, SP

A harmonia entre samba e composição que defende a luta antimanicomial é um dos abre-alas para as festividades de Carnaval em Campinas (SP), na tarde deste sábado (30). Um dos mais tradicionais da cidade, o Bloco Unidos do Candinho terá cortejo para lá de afinado no distrito de Sousas para cantarolar versos sobre alegria, esperança e liberdade de expressão.

Criado há 23 anos, o bloco espera reunir 1 mil foliões, entre eles, pacientes e funcionários do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira – referência nacional em tratamento da saúde mental – e moradores da região. A letra do samba-enredo empresta refrão de uma das canções mais famosas de Martinho da Vila, e considerou de forma sutil o descontentamento da comunidade interna com a nomeação do psiquiatra Valencius Wurch Duarte Filho para coordenador da Saúde Mental, Álcool e outras drogas do Ministério da Saúde. Ela ocorreu em dezembro de 2015.

Ludimila Palucci (esquerda) durante ensaio no MIS de Campinas (Foto: Mayara Megiolaro)Ludimila Palucci (esquerda) durante ensaio no MIS
de Campinas (Foto: Mayara Megiolaro)

“Através da alegria do Carnaval temos uma forma de colocarmos nosso desacordo com essa indicação e dizer o que desejamos para a reforma psiquiátrica. Avançar na implantação de Caps [Centros de Atenção Psicossocial] e atendimento dos pacientes no território, podendo prescindir cada vez mais da internação”, frisou o médico e diretor técnico da instituição, James Moura.

O tema “Se expressar é cuidar, deixa a gente cantar: Liberdade de expressão, não à exclusão” foi composto pelos pacientes Eliomar Guimarães Santana, Anderson Seixas e Cleusa Pena, além dos funcionários Ana Paula Donizete, e Marcello Araújo.

“No país não há outra iniciativa desse porte, é de muita qualidade o que fazem, há um toque de profissionalismo. O bloco está em consonância com a reabilitação, alegria é algo terapêutico. Mas a mnha participação é apoio moral, estarei lá sambando com os pacientes”, brincou Moura. [Veja acima vídeo cedido ao G1 pela fotógrafa Mayara Megiolaro com “esquenta” do Carnaval].

Bloco Unidos do Candinho
Samba-enredo 2016
Olha, o povo quer passar pela avenida
Trazendo alegria do Carnaval
Cantando a liberdade, com arte e amor
Vejam, o Candinho vem descendo a ladeira
Celebrando mais um Carnaval
Nosso bloco já está na rua, vamos todos sambando atrás
Cantando por mais liberdade, esperança e paz.

Refrão
Ôôôôô, sou Candinho, sou de Sousas, e canto com força
Eu quero me expressar
Ôôôôô, é o Candinho na avenida
com muita alegria
Liberdade de cantar

É se expressar, é cuidar
Deixe o povo cantar
Deixe o povo cantar com amor
É neste samba que loucura é harmonia
E a Beira Rio se enche de alegria
Com passos firmes cruzo a Ponte do Arraial
Mostrando a força desse nosso Carnaval
Quero minha verdade desfilando na avenida
Abrindo espaço para desrazão da minha vida

Canta, canta, minha gente,
deixando a tristeza pra lá
Canta forte, canta alto, que
a vida vai melhorar

Refrão

Construção artística
A festa deste ano será embalada por sons de tamborins, chocalhos, surdos e caixas, além dos timbres dos foliões. Há nove anos responsável por articular atividades artísticas no serviço de saúde, a psicóloga Ludimila Palucci explica que o tema do desfile foi definido de forma coletiva, durante as rodas de samba nas oficinas de sensibilização.

“Todos estavam muito animados e apareceram várias propostas, daí a gente decidiu juntar todas as letras para chegar a uma única. Essa referência ao Martinho da Vila surgiu quando uma senhora cantarolou, mas em outra melodia”, falou Ludmila ao lembrar que a intenção do bloco é levar a mensagem de luta antimanicomial aos espectadores.

“É um ideal para conquistar. A gente vai falar desse direito de estar no mundo, expressar nossas loucuras e compartilhar a alegria”, ressaltou.

A apresentação neste sábado terá reforço do Bloco Cupinzeiro, criado em 2002 no distrito de Barão Geraldo com a proposta de resgatar brincadeiras e tradições do Carnaval de rua. De acordo com a psicóloga, outro diferencial foi a preparação da festividade no Museu da Imagem e do Som (MIS).

“A ala musical teve neste ano uma residência sonora para preparar o bloco de carnaval. Isso foi muito legal, porque 70% do público que frequentou as oficinas conhecia apenas a fachada do Palácio dos Azulejos. A partir disso, também puderam saber sobre a programação gratuita de cinema”, destacou Ludimila. Os ensaios começaram em outubro e terminaram sexta-feira (29).

Bloco Unidos do Candinho espera reunir pelo menos 1 mil foliões, em Campinas (Foto: Mayara Megiolaro)Bloco Unidos do Candinho espera reunir pelo menos 1 mil foliões, em Campinas (Foto: Mayara Megiolaro)

Cores, baile e ‘opção’ na crise
Neste ano, a bateria vestirá camiseta verde-limão, enquanto os demais integrantes escolheram vestimentas na cor laranja. De acordo com Ludmila, o trabalho desenvolvido nos últimos quatro meses teve adesão de pelo menos 450 pessoas, dos quais 50 são ritmistas fixos no bloco.

Durante o evento também está prevista realização de um baile com marchinhas, para divertir os idosos participantes da festa. “Começa após o cortejo, é a primeira vez”, destacou a psicóloga.

A gente vai falar desse direito de estar no mundo, expressar nossas loucuras e compartilhar a alegria”
Ludimila Palucci

Como a Prefeitura de Campinas cancelou os desfiles das escolas para cortar despesas em meio à crise econômica nacional, organizadores do Unidos do Candinho estão otimistas com a possibilidade de ter mais público do que nas edições anteriores.

“Tomara que possam aproveitar o Carnaval, mesmo diante das dificuldades. A festa vai ficar mais bonita e alegre”, frisou Ludimila

Programação
O bloco planeja iniciar a concentração às 13h de sábado, e a expectativa é de que a festa seja realizada até as 19h, segundo a organização. O percurso terá início no Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira (Avenida Antônio Prado, 430) e segue pela Rua Cabo Oscar Rossini (altura da Praça Carlos Sevá), Avenida Isabelita Vieira (altura do Banco Itaú), e termina na Praça Beira Rio.

Histórico
O Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira foi fundado há 91 anos e mantém acordo com sistema municipal de saúde desde a década de 1990. Atualmente, a rede atende média mensal de 7 mil usuários com transtornos mentais graves, ou dependentes de álcool e outros entorpecentes.

A instituição tem cerca de 1 mil trabalhadores da área da saúde distribuídos em 50 unidades de atendimento. São centros de atenção psicossocial, centros de convivência e leitos de internação.

Samba-enredo do Unidos do Candinho trata de alegria e liberdade de expressão (Foto: Mayara Megiolaro)Samba-enredo do bloco trata sobre alegria e
liberdade de expressão (Foto: Mayara Megiolaro)

Polêmica
A escolha de Valencius Wurch para o cargo de coordenador da Sáude Mental do Ministério da Sáude gerou protestos em Campinas e outras cidades do país, incluindo Uberlândia (MG) eRio Branco (AC).

Além disso, o governo federal também enfrenta oposição de entidades como a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Associação Brasileira da Saúde Mental (Abrasme), e do Movimento Nacional pela Luta Antimanicomial (MNLA).

A Casa de Saúde Dr. Eiras faz parte de um histórico sombrio da psiquiatria brasileira, uma vez que cumpriu o papel de ser o maior hospital psiquiátrico privado da América Latina. No ano 2000, o relatório da I Caravana Nacional de Direitos Humanos, promovida pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, constatou graves violações de direitos humanos […], tais como prática sistemática de eletroconvulsoterapia, ausência de roupas, alimentação insuficiente e de má qualidade e número significativo de pessoas em internação de longa permanência. O Dr. Valencius W. Duarte Filho permaneceu no cargo diretivo até o início dos anos 2000“, informa nota pública subscrita pelas três entidades, além de outras quatro instituições, em dezembro.

Bloco ensaiou durante quatro meses para desfile no sábado (Foto: Mayara Megiolaro)Bloco ensaiou durante quatro meses para desfile
na tarde deste sábado (Foto: Mayara Megiolaro)

A assessoria de imprensa do Ministério da Saúde alegou, por meio de nota, que Valencius Wurch atua há 33 anos na saúde pública e participou das discussões que culminaram na Reforma Psiquiátrica, “amplamente debatida pela sociedade e aprovada pelo Congresso Nacional“.

Além disso, informou que não admite retrocessos na política em desenvolvimento.

O governo federal tem impulsionado a construção de um modelo humanizado, mudando o foco da hospitalização/segregação e promovendo tratamento às pessoas com transtornos mentais e decorrentes do uso de álcool e drogas com base em um modelo de cuidados voltado para a reinserção social, a reabilitação e a promoção de direitos humanos.

Entre 1993 e 1998, Valencius foi diretor da Santa Casa de Saúde Dr. Eiras, “onde trabalhou em prol da humanização do atendimento na unidade“, de acordo com o governo. “Além da prática médica, ele também atuou na área acadêmica, exercendo a função de professor de psiquiatria e coordenador de Internato e Residência da Universidade Federal Fluminense”, diz texto.

 

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