VIDA Nós todos devíamos fazer exames para diagnosticar depressão

Quase 8% dos adultos brasileiros têm depressão. Uma associação de médicos diz que todos devíamos ser examinados (Foto: Free Images)

A Força Tarefa para Serviços Preventivos dos Estados Unidos (USPSTF), um grupo formado por médicos e pesquisadores voluntários, publicou nesta terça-feira (26), uma recomendação para que adultos de todas as idades passem por avaliações para diagnóstico da depressão. A recomendação vale também para pessoas idosas, mulheres grávidas ou que acabaram de dar à luz. A ideia é identificar pacientes depressivos ainda nos estágios iniciais da doença, quando os sintomas são mais brandos. De acordo com os especialistas, o diagnóstico precoce e o tratamento – comantidepressivos, ações psicossociais ou ambos – aumenta as chances de a doença redimir, e diminui as perdas sociais decorrentes do problema. Na semana passada, a Academia Americana de Pediatria fez recomendação semelhante. A ideia, segundo eles, é fazer exames anuais em crianças a partir dos 11 anos.

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O diagnóstico da depressão é feito com base nos relatos do paciente. Nos EUA, há um questionário padronizado. São perguntas que buscam saber se a pessoa se sente triste sem motivo aparente. Ou se anda cansada, por exemplo. De acordo com a USPSTF, esse primeiro exame não precisa ser aplicado por um psiquiatra – os médicos da atenção básica devem ser capazes de fazer esse diagnóstico inicial. E, se houver suspeita de problemas maiores, devem encaminhar seus pacientes para especialistas na área.

Esses questionários também são usados no Brasil, traduzidos do inglês. Mas têm a função de auxiliar pesquisas científicas. O diagnóstico, aqui, precisa ser feito por médicos treinados, sejam eles psiquiatras ou não. Esse é o primeiro entrave para a adoção de práticas semelhantes no Brasil: “Os médicos da assistência básica não recebem esse treinamento, na sua maioria”, diz Miguel Jorge, professor do departamento de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). No Brasil, recebem esse tipo de treinamento os médicos que atuam no programa de Saúde da Família. Um número pequeno quando comparado ao total de médicos da assistência básica.

Outro entrave é imposto pelo sistema médico brasileiro. A recomendação da USPSTF leva em conta que, se o paciente apresentar sintomas de depressão leve, ele terá serviços de saúde disponíveis para os quais ser encaminhado. No Brasil, a existência a transtornos mentais na rede pública é centralizado nos Centros de Atenção Psicossocial, os CAPs. São serviços que funcionam bem no atendimento de trantornos mentais graves, como esquizofrenia ou mesmo depressão aguda. “Mas eles não funcionam bem no atendimento a problemas mais brandos e comuns na população, como ansiedade e depressão leve”, afirma Jorge.

A USPSTF não diz com que frequência esses exames têm de ser feitos. Sugere que todos passem por, ao menos, uma primeira avaliação, caso nunca tenham sido examinados. A preocupação dos especialistas com cuidados mentais é justificável.  A Organização Mundial da Saúde estima que 25% da população mundial sofrerá, em algum momento da vida, com algum transtorno mental – de depressão a esquizofrenia ou transtorno bipolar. A depressão é o mais comum: “A doença é a principal causa de incapacidade em meio à população com mais de 15 anos”, afirma o comunicado da USPSTF. Ela também é causa de suicídios, sobretudo entre os adultos de 18 a 29 anos. De acordo com dados do IBG de 2013, 7,6% dos brasileiros com 18 anos ou mais sofrem com o problema.

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Exames constantes funcionam como uma tática de prevençãoimportante. A recomendação manda um recado para a população: o de que é preciso atentar para a saúde mental. Se você sente uma dor aguda no peito, sabe que deve ir ao médico. Os problemas mentais, embora igualmente graves, não recebem a mesma abordagem. A ideia é de que essas avalições se tornem, aos poucos, rotina. Da mesma maneira que você acha normal medir a pressão arterial quando vai ao médico, achará normal ouvir perguntas sobre seu estado de ânimo.

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O risco dessa abordagem é medicar a população em excesso. Segundo Miguel Jorge, da Unifesp, um diagnóstico errado pode acontecer. E levar à medicação um paciente que não carece desse tipo de intervenção. Há ainda outro problema – há casos de depressão branda que podem ser resolvidos com aconselhamento médico e abordagens psicossociais. O sistema médico brasileiro não consegue oferecer esse tipo de internvenção de maneira ampla: “E o médico, sem alternativa, acaba receitando um medicamento”, afirma Jorge. Por falta de opções.

A própria USPSTF faz algumas ressalvas. Seus estudos mostraram que terapias cognitivas e outras abordagens psicossociais são boas opções de tratamento, com pequeno ou nenhum dano à saúde dos pacientes. O mesmo não pode ser dito dos antidepressivos. Sobretudo dos chamados inibidores seletivos  da recaptação da serotonina, como o Prozac.  A associação descobriu um aumento de ocorrências de comportamento suicida associado ao uso dessas medicações. E a ocorrência de lesões intestinais na população com 70 anos ou mais. “Mas a magnitude desses riscos, no geral, é bem pequena”, informa o grupo. A recomendação é boa. Para os EUA. Mas ainda não é um modelo para o Brasil.

Esse texto foi atualizado às 19:37 para incluir as avaliações do professor Miguel Jorge

 

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