Pacientes da saúde mental expõem críticas a hospícios no Fórum

Pacientes da saúde mental expõem críticas a hospícios no Fórum

MATHEUS CHAPARINI

Com instrumentos, bandeiras, e cantos bem humorados, um cortejo abriu caminho pelo Parque da Redenção, na manhã desta sexta-feira (22).

O grupo Nau da Liberdade, juntamente com profissionais, pacientes e militantes da saúde mental, denunciava o fato de vários de seus integrantes não poderem participar das atividades do Fórum Social Temático (FST) por estarem presos em manicômios e residenciais terapêuticos.

“O Fórum é considerado uma atividade política que faria mal para sua saúde mental”, era a mensagem transmitida através de um megafone.

Segundo os manifestantes, pacientes do Hospital Psiquiátrico São Pedro e de residenciais terapêuticos não podem mais deixar as instalações para outras atividades, como acontecia gestão anterior do Governo do Estado, quando o grupo realizava até mesmo viagens.

Lindomar, Olinda, Flavinho, Cássio, Deco, Hilda, Tânia… “Estes e mais de duzentos pacientes ainda estão presos nas grades do hospício. Para eles nós cantamos: viva a liberdade!”, prosseguiu o discurso.

Grupo fez chamada com nomes dos atores impedidos de participar do Fórum Social / Foto Aline Victorino

ARTE COMO CURA

Apesar dos desfalques, o cortejo reuniu algumas dezenas de pessoas.

O que está em disputa é o modelo de tratamento de saúde mental que se pretende. Como deve ser tratado o paciente: dentro do manicômio, no isolamento, ou do lado de fora, na rua, integrado à sociedade?

“Pacientes não precisam só de tratamento, precisam de outros laços com a vida. A arte, a livre circulação, o viajar, o passear, o comer fora, ter amigos também fazem parte da vida”, defende Carolina Pommer, atriz profissional integrante da Nau da Liberdade, grupo teatral nascido em 2013 dentro do Hospital Psiquiátrico São Pedro.

Recentemente, a Nau e outros grupos de teatro que integram o chamado Condomínio Cênico do São Pedro conseguiram reverter um despejo iminente: a Secretaria da Sapude havia pedido de volta os pavilhões 5 e 6, onde se alojavam, à pasta da Cultura, que vinha utilizando o espaço para incentivar a arte entre os pacientes.

Após muita mobilização, os grupos obtiveram, em dezembro, o compromisso do governo de que os pavilhões permanecerão com a Cultura.

A utilização das artes cênicas como tratamento começou em 2003, em função da reforma psiquiátrica, segundo a auxiliar de enfermagem Maria da Conceição de Abreu. “A gente formou um grupo de teatro mesmo sem saber fazer teatro. Não se tinha uma residência artística, era só a vontade”, explica.

Ela começou a trabalhar no Hospital Psiquiátrico São Pedro em 1982. “Eu já era antimanicomial sem saber, porque eu nunca aceitei as coisas que eu via lá dentro. Eram pavilhões enormes, com cem pessoas dormindo em triliches, o refeitório não era adequado, o cheiro era horrível”, critica.

“A NAU, A NAU, A NAU DA LIBERDADE”

Cortejo encerrou a programação intitulada "um outro mundo é possível sem maincômio" / Foto Aline Victorino

É nos pavilhões 5 e 6 – aqueles que a Secretaria da Saúde queria de volta – onde funciona a Nau da Liberdade, que hoje conta com cerca de 20 pessoas. Uma delas é Marlon Farias, paciente, ator e radialista.

“Eu passei a me sentir tão jovem, me entrosando com colegas e parceiros e a partir daí eu comecei a militar com a arte”, conta.

Além das atividades da Nau, Marlon apresenta o programa “Quartas intenções”, na rádio comunitária do bairro Rubem Berta, onde vive com a família.

A Nau da Liberdade foi criada em 2013, após uma vivência artística de três meses com o grupo italiano Accademia della Follia, formado por ex-internos de hospitais psiquiátricos. Durante a vivência, foi montada a peça “Azul como Liberdade”, encenada pelos pacientes do São Pedro juntamente com os atores italianos.

No ano passado, a Nau fez um intercâmbio com o grupo carioca Teatro de Dionísios, no chamado Hotel da Loucura, no Engenho de Dentro. Além disso, já viajaram por diversas cidades do interior do estado como Alegrete, São Lourenço do Sul, Caxias do Sul.

AVANÇOS ESTÃO EM RISCO

Nos últimos anos, defensores da causa antimanicomial conseguiram obter vários avanços, como a reforma psiquiátrica. Mas a falta de uma política de Estado para o tema faz com que cada troca de governo ponha em risco todas as conquistas e os avanços obtidos.

“Fora Valencius! Fora Luis Coronel!” são as principais reivindicações dos militantes da saúde mental no Fórum.

Valencius Wurch é psiquiatra e foi diretor da Casa de Saúde Dr. Eiras de Paracambi, o maior manicômio privado da América Latina, localizado região metropolitana do Rio de Janeiro e que foi fechado em 2012 após denúncias de violações dos direitos humanos.

Ele é o coordenador geral de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde, empossado em dezembro, depois que o PMDB assumiu a pasta, com o deputado Marcelo Castro como ministro. Para a militância, ele representa um retrocesso na luta antimanicomial.

Luiz Carlos Illafont Coronel, também psiquiatra, foi diretor do Hospital Psiquiátrico São Pedro durante o governo Yeda e atualmente é coordenador de Saúde Mental da Secretaria Estadual de Saúde.

 

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