A morte anunciada da psiquiatria

Psiquiatria é uma profissão em vias de desaparecimento (ou: como governos, corporativismo, ativismo social, capitalismo, e até mesmo médicos atuam em sinergia para destruirem essa atividade) [Desculpe-me pela extensão do artigo – uns 10 min de leitura – mas, como a tese é muito polêmica, preciso explicar bem e precaver-me de eventuais réplicas]. É uma tese, e como todas, pode pecar por generalizações, injustiças para determinadas pessoas ou grupos, pois para tudo há ótimas e honrosas exceções e aqui não seria diferente. É uma tese com interesse puramente analítico, e não atacar ou defender ninguém. O objetivo é epistemológico (aprofundar o conhecimento).

1- Comecemos por um anúncio divulgado recentemente: veja bem: “Contrata-se, para o interior de Goiás, médico clínico geral com aptidão em psicologia.” Aproximadamente 90% dos centros psicológicos do Governo não têm psiquiatras. Isso é possível porque “engambelar em psiquiatria” é muito fácil: dê “haldol + fenergan” para todo mundo. Com isto dopa-se todo mundo. Se a pessoa vai engordar, desenvolver diabetes, hipertensão, lesão neurológica irreversível, fumar, beber café, ficar o dia todo num quarto escuro sem sair de casa, isso é só um detalhe que não importa muito para pobres e para famílias que querem mais é ficarem livres de seu “empecilho” .

2- Aliás, famílias empobrecidas (até pela doença mental) que querem “ficar livres de seus empecilhos” explicam bem o porquê de tantos doentes psiquiátricos estarem morrendo nas ruas, nas prisões, em hospitais por causas “não-psiquiátricas” (suicídio, homicídio, overdose, cirrose, AVC, etc) e ninguém vir a público reclamar de falta de psiquiatras, falta de hospitais psiquiátricos, etc (que o Governo fez questão de acabar).

3- Para os governos esquerdistas/populistas é importante “comprar as causas” dos Direitos Humanos, dizer-se “Antiautoritário”, justamente para esconder o próprio autoritarismo e a ingerência na vida do cidadão. Para os Direitos Humanos dos Governos, ONGs, Ativistas, é importante mostrar como o psiquiatra, o hospital psiquiátrico, é “privador de liberdade”, truculento, autoritário. Um psicótico rico, internado em um Hospital Neurológico, “contido ao leito”, isso pode, assim como um cardiopata confuso amarrado num leito de UTI. Não pode é o doente mental “ser amarrado, privado de liberdade, diminuído em sua humanidade, eletrochocado, dopado” em um horrível leito psiquiátrico-manicomial.

4- Todos podem ter problemas neurológicos, ir em consultas neurológicas, irem em hospitais neurológicos, é normal que o cérebro adoeça. Mas, “louco”, “desequilibrado mental”, “retardado”, “psicopata”, ninguém é, ninguém quer ser. A prática da neurologia, tendo vislumbrado isso, passou a açambarcar várias doenças que eram psiquiátricas (mentais/comportamentais), tais como hiperatividade, autismo, demências, tiques, obsessões, etc. Como todas estas doenças mentais acontecem é no cérebro mesmo, o que tem de errado com a Neurologia assumi-las, dizendo que são de “sua área”? Até operá-los com neurocirurgias? (em Goiás “operam” depressão, alcoolismo, cocainismo, estes dias peguei uma doença de pick operada como depressão). Nos EUA, e mesmo no Brasil já acontece isso, sociedades médicas e especialistas em “neurologia comportamental, cognitiva”, já diagnosticam e tratam livremente as antes denominadas “doenças mentais-psiquiátricas” (depressão, toxicomanias, exaltação do humor, estados dissociativos, etc). Afinal, a desculpa final é sempre: acontecem no cérebro e têm alterações neurocerebrais… Hoje mesmo vi uma enfermeira coordenadora de PSF dizer para um médico clínico geral: carimbe aí estas receitas psiquiátricas, o nosso neuro está de férias… Um neurologista, que “sempre” precisa da psicóloga para tratar um doente psiquiátrico, não é uma ameaça para o “sistema”. Por isto, mesmo sendo quem mais trata depressão, autismo, hiperatividade, ansiedade, insônia, pelo Brasil afora, não incomodam ninguém. Pelo contrário, agradam a todos. Os “leitos neurológicos” não incomodam, pois não questionam a existência do psicólogo “diagnosticador-e-terapeuta-de-doenças-mentais”. Neuros não ameaçam Governos socialistas ou corporativismo de saúde mental com os seus “hospitais neurológicos”. Assim se pensa no antipsiquiatrismo governamental e corporativista: doença cerebral existe, doença psiquiátrica não pode existir. Se ela existir, “nós perdemos a liberdade”,”nosso comportamento vai ser rotulado e tutelado”, “o espírito não tem mais razão de ser” (a “psiquiatria é anti-religiosa”), “nós perdemos o poder da palavra que cura, do gesto que cura, da terapia que cura”, “perdemos o poder do humanismo”, “ficamos atrelados a alguém para diagnosticar e dopar”, “perdemos a justificativa da abertura de mais e mais centros de terapia do Governo”.

5- Em dobradinha com a neurologia, vem a psicologia, para “conversar com os pacientes que os neuros não conversam”, fazerem “testes para diagnosticarem as doenças mentais que os neuros não diagnosticam”, dar uma “chancela “psi” ao tratamento para aplacar a consciência e eventuais processos (p.ex., suicidios por má-condução médica) dos neuros. Afinal, tanto no público quanto no particular, ninguém se sente estigmatizado por ter “problema psicológico” (a própria mídia, nunca fala em transtorno psiquiátrico, sempre em “distúrbio psicológico”). Nos serviços públicos isto gera uma vantagem suplementar: os empregos e concursos públicos para “atendimentos em massa de pessoas em sofrimento psicológico” (o nome que o Ministério da Saúde dá para doenças psiquiátricas). É por isso que os Centros Psicológicos do Governo vêm , paulatinamente, “substituindo” médicos psiquiatras, faz parte da agenda corporativista deles o desaparecimento de psiquiatras e seus hospitais (quanto menos hospitais e menos psiquiatras, mais justificativas para mais empregos em centros psicológicos – como se vê isso também virou uma questão de sobrevivência financeira, daí seu viés político-ideológico). Para ser um “apêndice prescritor”, dos Governos, dos psicólogos, dos postos de saúde, como vimos acima, contratem-se os “clínicos gerais com aptidão para psicologia”. Afinal, não precisa ser especialista psiquiatra para “dopar” alguém.

6- Então, até agora, já vimos que interessa para os antipsiquiátricos, seja governos, ativistas antiautoritários, médicos, psicólogos, o desaparecimento da psiquiatria. Mas não é só; para os pacientes psiquiátricos também é bom que a psiquiatria desapareça. Grande parte deles, os “dopados do sistema”, os “amarrados em leitos”, os “rotulados em sua liberdade”, os “carreadores de diagnósticos estigmatizantes”, odeiam seus psiquiatras. O que não é difícil, pois seus psiquiatras “não conversam com eles, não passam de apêndices prescritores que só fazem dopá-los”. O Governo paga uma merreca, os planos de saúde pagam uma merreca, psiquiatras tendem a pensar assim (para tudo que eu disse e digo há honrosas exceções , repetindo): “É melhor dopar rapidinho e atender muitos do que morrer de fome.” Esses “dopados e estigmatizados” serão os futuros “ativistas-anti-autoridade-psiquiátrica” que irão fazer as “passeatas anti-manicomiais” visando acabar ainda mais com os psiquiatras e seus “abomináveis hospitais”.

7- Hospitais e psiquiatras, atacados e desautorizados como se vê acima, vêm sendo substituídos, com prazer pela população, por várias outras “estruturas” bem mais humanas e menos psiquiátricas: “fazendinhas de recuperação”, “casas religiosas de reabilitação”, “asilos de doentes e de aposentados”, Centros Psicológicos Governamentais 24 horas, leitos neurológicos (“neurologia cognitivo-comportamental”) em hospitais gerais, etc. Tudo isto para, agradavelmente, acabar com a estigmatizante psiquiatria; afinal quem quer ser “louco” , desequilibrado, retardado ou psicopata? A disfuncionalidade operacional estatística já comprovada dos tais “leitos psiquiátricos em hospital geral” é apenas um detalhe (muito poucos em décadas de propaganda enganosa) .

8- Não é só para o Socialismo (Governo) que é bom que a psiquiatria desapareça. Para o Capitalismo também. Nos EUA a psiquiatria está em franco processo de destruição: psicólogos forenses já diagnosticam, internam, dão alta; psicólogos clínicos já prescrevem medicamentos, pedem exames; enfermeiros já atendem emergência psiquiátrica; assistentes sociais já fazem psicoterapia, diagnóstico mental e aconselhamento, etc. Dizem que é “muito caro” formar um psiquiatra, mais barato formar outros, e como psiquiatras tendem a ganhar relativamente pouco (governos e planos de saúde não acham que uma consulta psiquiátrica de 2 horas deva valer mais que uma dermatológica de 5 minutos), a profissão perde o glamour rapidamente nos EUA (os “brancos, homens e protestantes” a estão abandonando em massa, só ficam os empobrecidos e des-glamourizados “latinos”). Segundo os americanos, não é preciso tanta formação médica aprofundada para prescrever um “calmante” ou um “antidepressivo”, um enfermeiro pode, um psicólogo pode.

9- “Doença psiquiátrica não existe, hospital psiquiátrico não existe.” Podemos tratar “pessoas com sofrimento psicológico agudo” ou pessoas com “doenças cerebrais de manifestação cognitivo-comportamental” em “leitos mentais em hospitais gerais”. Este tem sido o mote dos antipsiquiatras do: Ministério da Saúde, tem sido o mote dos psicólogos pró-Estado, é o mote de neurologistas “cognitivo-comportamentais”. Até o pessoal de esquerda humanista (vide Basaglia e a Anti-Psiquiatria), grupos LGBT (“psiquiatras nos discriminam, moralizam e rotulam”), até os religiosos (“o espírito não adoece e precisa de tratamento moral”) – vide Cientologia, espíritas (donos das maiorias dos sanatórios), evangélicos (donos das maiorias de “casas de recuperação”) adoram o fim da psiquiatria, pois assim acaba-se com a tentativa desta “ignóbil” prática profissional, aquela de “rotular a liberdade das pessoas”, “querer tratar o que é problema do espírito”, “querer endireitar o que faz parte da criatividade humana”, “quererem dopar o nosso desejo, o nosso ser desejante”. Faz parte do socialismo a tentativa de destruir os hospitais que ainda estão em mãos de médicos da iniciativa privada. Hospitais psiquiátricos são alvo preferencial pois, dada sua baixa complexidade tecnológica, ainda podem estar na mão de um médico privado. São bastiões da resistência capitalista a serem destruídos , odiados por esquerdistas, a quem interessa que todo hospital esteja na mão do Governo. Para hospitais gerais a estatização é fácil pois eles necessitam de uma tecnologia e custos que os impostos e exigências do Governo proíbem para um médico pessoa física.

10- Por tudo isso, recuso que me chamem de psiquiatra, recuso a colocar placas ou denominações de psiquiatra, de psiquiatria. Sou “um médico de doenças cerebrais com repercussões comportamentais”, sou um “médico de doenças cerebrais que conversa com seus pacientes”, sou um “médico que gosta de aliviar o sofrimento psicológico das pessoas”, converso com elas, faço “terapias”, trabalho em um hospital de “doenças encefálicas”, “problemas psicológicos”, “desordens psicossomáticas”, “neuropsicológicas”. A psiquiatria toda é um grande erro, de cabo a rabo e, quanto mais o tempo passa, mais errada ela vai ser. Psiquiatra não!!!

 

(Marcelo Caixeta, médico de doenças cerebrais que dão repercussão psicológica)

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