Acúmulo obsessivo de objetos pode ser doença, dizem especialistas

08/01/2016 12h37 – Atualizado em 08/01/2016 14h42

Acúmulo obsessivo de objetos pode ser doença, dizem especialistas

Mais de 20 caminhões de lixo são retirados de casa em Bom Despacho.
‘Envolve saúde pública e essas pessoas precisam ser tratadas’, diz médico.

Anna Lúcia Silva e Thulio OliveiraDo G1 Centro-Oeste de Minas

Bom Despacho, lixo, acumuladores,  (Foto: Assessoria/Divulgação)Lixo foi retirado de casa em Bom Despacho após decisão judicial (Foto: Prefeitura/Divulgação)

Nesta semana a Prefeitura de Bom Despacho realizou, mediante uma ação judicial, um mutirão de limpeza em uma residência particular, repleta de entulhos e lixo. No caso, não foi confirmado se o morador tem Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Contudo, dois psiquiatras entrevistados pelo G1 afirmam que a acumulação compulsiva ou dificuldade de se desfazer de objetos pode ser indícios da doença que é conhecida como Síndrome de Diógenes.

O psiquiatras Carlos Reche explica que esse acúmulo é um transtorno emocional com forte reflexo comportamental que caracteriza-se pelo recolhimento excessivo e incapacidade para descartar objetos. “Na verdade isso é uma desculpa que a pessoa dá, mediante o transtorno. Ou seja, esses pacientes sempre dizem que vão precisar em algum momento desses objetos. É uma mania como outra qualquer do TOC, como checar várias vezes a porta, ver se o fogão está aceso, dentre tantas”, disse.

Casa vira depósito de lixo em Divinópolis (Foto: Reprodução/TV Integração)Síndrome de Diogenes é comum em pessoas
mais velhas (Foto: Reprodução/TV Integração)

Ainda segundo o médico, esse tipo de transtorno é mais comum em pessoas mais velhas, mas pode acometer também os jovens. “O idoso começa a pensar que não pode produzir como no passado e que em algum momento futuro poderá faltar aquilo que ele guarda. Então, ele se resguarda acumulando itens sem nenhuma serventia achando que poderá usar”, explicou.

Comportamento
Os acumuladores compulsivos juntam grande quantidade de coisas, geralmente em completa desordem. Além de ser um problema de saúde pública, o psiquiatra Luiz Carlos de Oliveira afirma que esses pacientes precisam de ajuda. Inclusive porque a ação pode representar perigo para saúde pública, pois desses entulhos podem surgir animais como ratos e mosquitos transmissores de doenças.

“Além disso, é preciso ter atenção especial com o paciente. No momento em que há uma intervenção, esses objetos, ou lixo, são retirados de onde ele acumula, isso resolve em partes o problema. Por isso tem que ser oferecido também um tratamento, pois pessoas não têm condições de perceber que é uma doença”, enfatizou.

Geladeira de casa estava desligada e com acúmulo de lixo (Foto: Anna Lúcia/G1)Geladeira de casa desligada e com acúmulo de
lixo (Foto: Anna Lúcia/G1)

A medida que os acumuladores juntam objetos sem uso, esses entulhos passam a dominar suas vidas, sem que a pessoa consiga se libertar delas e isso afeta diretamente o convívio social, como relata Luiz Carlos.

“Essas pessoas passam a não receber mais visitas em casa, criam atritos familiares, já que a família por vezes irá exigir que ela retire os materiais. Ou seja, há um impacto social muito grande, pois a pessoa não consegue perceber que o que ela está fazendo destoa do normal”, disse.

Já o médico Carlos Reche completa que se não houver tratamento a medida pode não surtir efeitos. “A grosso modo seria esconder a sujeia debaixo do tapete. Sem tratamento essa pessoa voltará a acumular lixo e em pouco tempo a situação será a mesma. Há tratamento para esse transtorno com medicamentos e com psicoterapias. Não é possível estipular o tempo de tratamento”, disse.

Casa com entulhos

Foram retirados mais de 20 caminhões de lido de dentro da casa (Foto: Assessoria/Divulgação)Foram retirados mais de 20 caminhões com lixo de dentro da casa (Foto: Assessoria/Divulgação)

Procurado pela equipe do G1, o morador da casa de onde foram retirados lixos nesta semana, em Bom Despacho, não quis se manifestar. Até esta sexta-feira (8), já foram retirados 23 caminhões carregados com o lixo. A ação deve ser encerrada no fim desta tarde.

A secretária de Saúde da cidade, Neide Braga, informou que ele se diz inventor e afirmou para equipe de limpeza que todo o material era utilizado para fazer as criações dele. “Compareci pessoalmente ao local e vi que tinham muitos materiais que na verdade não eram sequer utilizados. Ele é um homem até muito inteligente e não apresentava qualquer tipo de distúrbio. Foram retirados do local cinco veículos, máquinas pesadas e outros materiais considerados como lixo”, disse.

A Prefeitura informou que o principal receio é sobre o risco com a dengue. “Foram encontrados verdadeiros focos permanentes do mosquito e várias larvas. A situação já tinha se arrastando há tempos. No último ano ele chegou, inclusive, a ser multado em R$ 673 e ainda assim não autorizava a entrada dos fiscais. Este ano entramos com a ordem judicial para que os fiscais pudessem entrar no local’, contou

A Prefeitura pontuou ainda que para evitar este tipo de caso, foi criada em dezembro a lei de número 2532/dezembro, que proíbe as pessoas de manter resíduos que acumulem água em casa. “Se o agente visitar o local e ele não estiver limpo, a pessoa é orientada a fazer esta limpeza em até 24h. Se após 24h o local não estiver limpo, o proprietário é multado de R$ 100 a R$ 300 e notificado a fazer a limpeza em até outras 24h. Se após mesmo após estas novas 24h não houver a limpeza, esta multa é dobrada e então encaminhamos a situação para o Ministério Público”, destacou.

Segundo a Prefeitura, não haverá tentativa de encaminhá-lo a um tratamento. Não houve avaliação para identificar qualquer tipo e transtorno e destacou ainda que essa ação extrapola a responsabilidade do Executivo. A família não se manifestou sobre o caso.

Carros velhos foram retirados da casa em Bom Despacho (Foto: PMI/Divulgação)Carros velhos foram retirados da casa em Bom Despacho (Foto: PMI/Divulgação)
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