Um passo atrás na saúde mental brasileira

Quando imaginamos que a evolução e o acompanhar da lógica terapêutica é um ponto basilar da medicina, eis que somos tomados de surpresa com a nomeação do novo coordenador nacional de Saúde Mental. Definitivamente, um retrocesso. O coordenador nomeado foi um dos severos críticos à Reforma da Assistência Psiquiátrica no Brasil e, também, exerceu a função de diretor técnico da Casa de Saúde Dr. Eiras de Paracambi (maior hospital psiquiátrico privado da América Latina). O referido hospital de características manicomiais sofreu várias denúncias de violações de direitos humanos nos pacientes internados.

 

Quem entrou num manicômio não é capaz de esquecer. As imagens, os olhares sofridos, os gritos agonizantes, o odor fétido e o esquecimento humano ficam impregnados na memória. Uma memória sensitiva, pois o cheiro de urina e fezes, nas instituições manicomiais, é o seu cartão de visita. Por isso, uma reforma na assistência psiquiátrica se fez necessária a fim de garantir direitos humanos, dignidade e um tratamento que, de fato, acontecesse.

 

Não é admissível alguém defender os manicômios. Defendê-los não é um simples desconhecimento científico e técnico, mas, sim, um ato de maldade sem igual ou uma perversão emocional digna de pena. É um ato desumano, pois o manicômio provoca os seguintes produtos: a animalização e a exclusão. O manicômio é uma estrutura eugênica e dominadora. O manicômio fere, machuca e dilacera. O manicômio é a confirmação de como o ser humano pode ser cruel.

 

Então, onde o paciente psiquiátrico deveria ser internado, caso a internação seja necessária? Diga-se de passagem, em todas as especialidades médicas, inclusive a psiquiatria, a internação não é a regra, mas, sim, um evento de exceção. A resposta é simples – em instituições que respeitem a ética, o humanismo, o conhecimento técnico e o encontro de saberes de equipes interdisciplinares.

 

Diante de tudo isso, o atual ministro da Saúde precisaria entender que a saúde mental se faz com uma Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) de base comunitária e com um funcionamento estruturado e hierarquizado (atenção primária, secundária e terciária). Como esse entendimento não ocorreu, houve a nomeação de um coordenador que pensa diferente e que, historicamente, deu mostras disso. Um soco no fígado do usuário e dos profissionais de saúde. O que o futuro nos trará? Não sei responder; contudo, o ato dessa nomeação nos atormenta, pois eu e vários profissionais da saúde mental lutamos por uma sociedade sem manicômios.

 

Régis Eric Maia Barros

regisbarros@usp.br
Médico psiquiatra; mestre e doutor em Saúde Mental pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP)

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