Conheça a Distimia: a depressão que não parece doença

Você tem uma boa relação familiar, amigos, um emprego formal e até relacionamentos amorosos. Apesar de tudo parecer normal, há pessoas que em meio a aparente felicidade, ainda sentem um “vazio”, aquela sensação de que “falta alguma coisa”. O diagnóstico não é fácil, mas a psiquiatria chama a atenção para uma doença pouco falada, mas que pode atingir boa parte da população – a Distimia.

 

Por não parecer com outras doenças, a Distimia pode ser facilmente confundida com traços de personalidade. Afinal, todo mundo conhece alguém que é reservado demais, ou que tem dificuldades de manter amizades ou relacionamentos, ou até mesmo que já tentou emagrecer repetidas vezes e não conseguiu, não é mesmo? Essas características podem estar muito além de um simples comportamento e podem ajudar em um diagnóstico eficaz da doença crônica, que tem tratamento e cura.

A distimia, segundo o Código Internacional de Doenças leva o nome de Depressão Crônica Leve e de acordo com o psiquiatra Alan Rodrigues,  traz um sofrimento psicológico crônico e que pode durar muitos anos porque não repercute diretamente na vida da pessoa. “O distímico na adolescência começa a manifestar a doença, mas como não tem sintomas clássicos de tristeza, depressão, grau de ansiedade acentuado – aquilo vai sendo encarado como uma característica da pessoa, um traço da personalidade, a pessoa ser calada como se não conseguisse apresentar alegria. Mesmo não sendo psiquiatra as pessoas tem noção de quando uma pessoa está deprimida. Tanto que os distímicos quando procuram os consultórios vem porque tem dificuldade de concentração para passar em concurso, dificuldade para enfrentar relacionamento, apetite, sono, mas nunca chegam aqui ‘doutor acho que to deprimido’, e aí conversando direito,  a gente percebe que são pessoas que tinham tudo pra estar mais alegres”, explicou Alan Rodrigues.

E tudo pode piorar, caso não seja feito o tratamento adequado, o paciente pode agravar seu quadro e passar a ser diagnosticado com depressão grave.

Características que podem ajudar a identificar um distímico

-Sentimento de vazio constante;
-Baixa auto-estima;
-Dificuldade extrema de fazer coisas pouco dificultosas;
-Dificuldade de relacionamentos interpessoais;
-Tendência de amplificar o que é ruim;
-Dificuldade em terminar as coisas que começa;
-Tendência a comportamentos de risco;
-Irritação constante;
-Melancolia constante;
-Sensação de sono, ou cansaço constantes;
-Alterações de apetite;

Porém, uma linha tênue separa reações provocadas por algum conflito pessoal, da doença em si, por isso a necessidade de uma visita a um psiquiatra, ou psicólogo para dar início ao tratamento, que pode durar vários anos, mas se seguido a risca, pode dar quase totais garantias de cura. “Quem tem distimia geralmente não procura primeiro o psiquiatra porque não parece uma doença, vai procurar uma equipe de nutrição para emagrecer ou um psicólogo porque não consegue se manter em relacionamentos amorosos ou estudam para concurso e nunca se sentem preparadas, ou tem dificuldade em relacionamentos. Um bom profissional, já indica uma avaliação psiquiátrica junto ao tratamento procurado”, completa Alan.

Segundo o psiquiatra, é comum em seu consultório, homens e mulheres muito bonitos com sentimento de baixa auto-estima sem explicação. “São pessoas superficiais no sentimento e são pessoas que não se sentem bem em relação aos demais, além do que, tem tendência de amplificar o que é ruim. O bom, ela nunca sente o máximo, mas mergulha de cabeça nos sentimentos ruins”, explica.

É comum que adultos com faixa etária entre 25 e 30 anos procurem um especialista para um diagnóstico mais acertivo, já que é nessa idade que a doença começa a influenciar de forma mais direta no dia-a-dia do paciente. No geral, uma ou duas consultas podem ser necessárias para um diagnóstico.

Sem tristeza

Tristeza não é uma das características fortes da doença, tanto que, segundo o psiquiatra, ao longo do tratamento não é questionado se a pessoa se sente melhor em relação a esses sentimentos e é comum entre os pacientes duvidar que os remédios tenham provocado a melhora. “Nós perguntamos como está no trabalho, no namoro. O apetite, o sono. Nós conseguimos perceber a evolução pelo dia-a-dia da pessoa que começa a melhorar em vários aspectos, mas apesar de geralmente não acreditarem, o remédio tem ajudado diretamente na melhora”, reforça.

A cura existe

Assim como a maioria dos casos conhecidos de depressão, a distimia tem cura e requer um tratamento medicamentoso acompanhado por um especialista. Segundo o psiquiatra, as alterações biológicas que levam à distimia são as mesmas que levam à depressão clássica mas como cada indivíduo, reage conforme a sensibilidade pessoal. “Tem gente que não atinge o humor, outros só atingem a auto-estima, no cansaço, no sono, assim como não existe um paciente que tenha depressão igual ao outro”, pontuou.

Por se apresentar nos pacientes há mais de dois anos, a doença é considerada crônica, mas não incurável.”tomando o anti-depressivo, aliado a um tratamento de psicoterapia você primeiro controla e depois passa a diminuir as visitas ao psiquiatra e com o tempo começa a sentir as mudanças no estilo de vida. O ideal é evitar se deixar em situações conflituosas e fugir das drogas”, indicou o médico.

Drogas

Por ter tendências a se submeter a comportamentos de risco, é comum que o distímico tenha experiências com drogas, viagens arriscadas e até relações sexuais sem prevenção. “Nenhuma droga mostra a cara boa no começo, mas depois não é incomum as pessoas passarem a fazer uso abusivo para se sentirem melhor”, explica Alan.

O médico esclarece ainda que não há problemas com o tratamento da distimia simultâneo a outros tratamentos como da obesidade ou doenças crônicas como o HIV. Segundo ele é necessário apenas que o psiquiatra analise as substâncias que a pessoa toma e exclua os remédios que não podem ser usados por cada paciente.

Distimia entre nós

Apesar de pouco falada a doença atinge muitas pessoas, mas diferente da depressão clássica, é difícil apresentar um número já que, segundo o especialista, ela é subdiagnosticada. “É difícil tanto pro paciente quanto pro médico. As pessoas demoram anos e anos para ir e chegam ao consultório ao acaso. Não há como dizer a epidemiologia real mas com certeza acho que é uma doença que prevalece mais que a depressão clássica”, pontuou o médico.

Na ficção é fácil identificar pacientes com quadro distímico claro. Alan dá o exemplo. “A Hiena da turma do manda-chuva é distímica do tipo  melancólica. Ao contrário de como é apresentado o comportamento do animal em outros desenhos, ela se reclama bastante e fala sempre ‘Ó Deus, Ó Céus”, e o Mutley, cachorro do dick vigarista também é distímico do tipo irritado já que ele resmunga o tempo inteiro”, exemplificou.

Perceba a distimia

É mais fácil outra pessoa perceber se a doença existe em um paciente do que o próprio e segundo o médico, os amigos próximos e familiares sofrem mais com a doença do que o paciente. Por isso, é importante perceber se alguém ao seu redor apresenta essas características, para que um tratamento adequado seja indicado.

A doença começa na adolescência mas prevalece em adultos entre 20 e 25 anos. Normalmente, assim como outras depressões, é mais presente em pessoas do sexo feminino, mas o médico explica que isso só acontece pelo fato das mulheres sempre procurarem tratamento mais que os homens.

É importante ressaltar portanto, que trata-se de uma doença genética. “Um lar desestruturado e outros conflitos da vida são fatores de piora, mas não de desencadeamento da doença, que é totalmente genética”, esclareceu.

Para concluir, Alan explica que diferente do que se comenta, não é a sociedade atual que produz um número maior de pacientes depressivos. O que aumentou foi o esclarecimento e as possibilidades de tratamento. O médico deixa ainda a dica para as pessoas que se identificam com as sensações descritas na matéria e orienta: “Se você mora em um lar legal, sua família é tranquila e mesmo assim você apresenta dificuldades, é bom procurar um psiquiatra ou um psicólogo para ter uma avaliação correta e um acompanhamento. Com a terapia, a vida melhora e com os remédios você pode conseguir a cura”, concluiu o médico.
Rayldo Pereira
rayldopereira@cidadeverde.com

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