Suicídio não é crime nem pecado, nem covardia ou coragem’, diz médico

Dados da Secretaria de Saúde mostram que, de janeiro até outubro deste ano, foram registradas 598 tentativas de suicídio na Capital, sendo que em 2014 ocorreram 53 óbitos. Outro dado alarmante é que o suicídio respondeu pela terceira causa de morte em 2014 dentre as causas externas, enquanto que a tentativa é a terceira violência mais registrada. E nesta época de fim de ano ocorre o aumento do número de tentativas de suicídio. Nesta entrevista, o médico doutor e pós-doutor em Saúde Mental, José Carlos Rosa Pires de Souza, fala sobre o assunto.

CORREIO PERGUNTA 
Podemos dizer que com a proximidade do fim do ano, das festas, o número de suicídios aumenta? Qual é o quadro em Mato Grosso do Sul ou Campo Grande?
JOSÉ CARLOS ROSA PIRES  DE SOUZA –  Nesta época do ano há um aumento do número de tentativas de suicídio consumado. É um momento de mudanças, como também de incertezas; momento de alegria, porém de encontros e desencontros. Em Campo Grande houve 598 tentativas de suicídio até o mês de outubro deste ano. Em 2014 houve 750 e 53 suicídios; porém a cada um notificado quatro não o são. Em 2014, o suicídio foi a terceira causa de morte entre as causas externas e terceira violência mais registrada em Campo Grande, segundo dados da audiência pública sobre o tema realizada este ano na Câmara Municipal.

Quais sãos os principais distúrbios relacionados à prática do suicídio?
O suicídio nem sempre é patológico, podendo ter uma motivação política, econômica, religiosa e/ou filosófica. Quanto aos distúrbios relacionados à prática do suicídio, em média 60% dos depressivos pensam em suicídio e 15% tentam; entre os esquizofrênicos em média 10% tentam contra a própria vida. Os drogaditos e etilistas também tendem a tentar suicídio com certa frequência, assim como os doentes crônicos e terminais.

Segundo o médico, 90% das pessoas avisam de alguma forma – Foto: Bruno Henrique / Correio do Estado

O suicídio pode ser definido como uma epidemia silenciosa? Qual a faixa etária que mais está suscetível atualmente e por que?
Sim, o suicídio é um problema sério de saúde pública. A maior prevalência está na faixa etária dos 15 aos 25, em ambos os sexos, todas as escolaridades e classes sociais. Na adolescência há muitas transformações físicas, hormonais, emocionais e sociais, que, por vezes, os jovens não estão preparados a enfrentá-las. Há relatos de suicídio a partir de cinco anos de idade. Assim como nos idosos, que são a segunda faixa etária mais frequente.

Se uma pessoa fala em suicídio, deve-se evitar o assunto ou falar com ela sobre isso?
Deve-se falar abertamente, sem preconceitos e sem estigmas. Deve-se mais ouvi-la e observá-la, do que ficar lamentando, dando conselhos ou “lições de moral”.

Quais os grupos mais vulneráveis?
Os grupos de maior risco são os depressivos, os drogaditos, etilistas, aqueles que têm história de suicídio na família, os que estão internados em hospitais, presidiários, moradores de rua, gestantes vítimas de violência sexual, trabalhadores rurais expostos a agentes tóxicos e precárias condições de vida, doenças crônico-degenerativas, HIV/AIDS e indígenas.

O que um pai ou uma mãe deve fazer quando ouve o filho falar em suicídio?
Deve ter o máximo cuidado em acolhê-lo e ouvi-lo. Não deve se desesperar, pelo menos na frente do filho, pois neste momento crítico até os profissionais de saúde mental possuem, por vezes, dificuldades na abordagem e na intervenção dos pacientes com ideação suicida. Cada caso é único e os pais precisam procurar ajuda profissional e não negligenciarem o fato. Os entes queridos das pessoas que se suicidam sofrem em demasia com a sua perda, muitas vezes imputando-se culpa pelo fato ou mesmo arrependimento por não ter tomado esta ou aquela providência. O suicídio não é crime nem pecado, nem covardia ou coragem. O suicídio por vezes não é compreendido e até desprezado. Os que sobrevivem, muitas vezes, envergonham-se e sentem-se mal perante os familiares e amigos. Uma tentativa pode levar a outra ou outras, dependendo da reação dos que convivem com o suicida.

Há uma tendência na população em não falar sobre o assunto. Isso é um problema?
Infelizmente, falar de sexo e morte ainda é um tabu para algumas pessoas. A prevenção primária é a mais adequada, aquela em que o problema não aconteceu e todas as abordagens e intervenções serão com o intuito dele não acontecer. A prevenção secundária é aquela em que o problema já aconteceu e o tratamento é feito em nível de ambulatório ou consultório, visando que o problema não cronifique e nem evolua para a necessidade da terciária, que é feita em nível de uma instituição pública e/ou privada, onde se pretende resguardar a vida da pessoa, além de prepará-la para uma reintegração ou reinserção social. Em média, 90% das pessoas avisam e alertam de alguma forma, 90% dos casos são evitáveis, uma em dez tentativas termina em morte; o suicídio aumentou 21% em 20 anos, em todo o mundo. As mulheres tentam mais; os homens se suicidam duas a quatro vezes mais que as mulheres.

Como avalia a forma como a sociedade lida com o sofrimento psíquico? Há profissionais preparados para o tratamento e prevenção?
O estigma e o preconceito ainda pairam no inconsciente coletivo de algumas pessoas. O indivíduo sofre um infarto ou acidente de trânsito as pessoas fazem questão de visitá-lo no hospital ou em casa. Agora se a pessoa está com algum transtorno mental ou mesmo tentou suicídio, pergunta se os amigos e familiares fazem questão de visitá-los? Parece que algumas pessoas pensam que as doenças mentais são “contagiosas”; isto tem sido chamado de Psicofobia, projeto em trâmite no Senado Federal para se tornar crime.
Temos muitos profissionais de saúde preparados e bem treinados para o atendimento público e privado, para os diversos tipos de prevenção (primária, secundária e terciária).

Há algum manual ou cartilha que oriente pais e familiares para a prevenção?
O Ministério da Saúde lançou em 14 de agosto de 2006 a Portaria nº 1.876 com as Diretrizes Nacionais para prevenção do suicídio. Em Campo Grande foi sancionada e publicada no Diário Oficial em 30/09/15 a Lei nº 5.613/15, com medidas de prevenção ao suicídio nas escolas municipais. A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Conselho Federal de Medicina publicaram uma cartilha de orientação e prevenção do suicídio, disponível no site da ABP.   O Exército Brasileiro está implantando em nível nacional um projeto de valorização da vida para combate e prevenção do suicídio; assim como a Polícia Civil local implantou o projeto “Tira Solidário”.

O governo do Estado instituiu o Setembro Amarelo  dedicado à prevenção do suicídio. Como o senhor acha que deve ser feito este trabalho?
Acho que deve haver um controle social maior da população neste processo, envolvendo as associações de bairro, as diversas igrejas, as escolas, os profissionais das estratégias saúde da família, as Unidades Básicas de Saúde (UBSs), os Centros Regionais de Saúde (CRSs), hospitais públicos e privados, as universidades, a imprensa e a mídia em geral. O povo deve se mobilizar e o governo tem obrigação de financiar programas e projetos duradouros e eficazes, o menos burocráticos possível e com resultados positivos. Assim como, deve haver maior investimentos nas pesquisas de saúde mental em nosso estado.

Há alguns outros cuidados a se tomarem com pessoas propensas ao suicídio?
Deve-se levar em consideração: empregabilidade e desemprego, estrutura familiar, condições socioeconômicas, padrão de possibilidades de consumo de insumos (roupas, alimentos e lazer), aceitação no meio, ideologias e outros. Há mais relatos de alguns fatores protetores e estratégias de enfrentamento como: morar com outras pessoas, filhos e/ou companheiros, atividade física, social e espiritual, diálogo.
Cada pessoa é única e assim deve ser vista, abordando-se os seus aspectos físicos, sociais, psicológicos, ambientais, históricos, culturais e religiosos/crenças, visando, em última análise sua melhor qualidade de vida. É importante que não se menospreze e nem se ironize os pacientes suicidas, dizendo que “a pessoa está querendo chamar a atenção”. Trata-se de algo sério e muitos já morreram por assim serem considerados. Deve-se lembrar que o ser humano, dependendo das circunstâncias, de seus objetivos e expectativas, pode estar predisposto a falar a verdade, mentir, omitir, exagerar e/ou amenizar os seus sentimentos e emoções. Muitas vezes quando não se sente respeitado, pode se fechar em seus sofrimentos. A observação e os cuidados devem ser contínuos, ressaltando que devemos usar muito mais da escuta e da visão do que da fala.

Qual a maior dificuldade dos médicos frente ao paciente suicida?
Falando por mim, posso dizer que tive uma formação médica bem diferente da atual. Na graduação profissional, tradicional, às vezes o médico é imbuído de uma onisciência e onipotência de que poderá resolver o problema de todo mundo. Isto não é verdade, pois somos também humanos e temos sentimentos por vezes até mais fortes e sofridos que nossos pacientes. Já na formação médica voltada às Metodologias Ativas de Aprendizagem, como a baseada em problemas (PBL), o aluno entra em contato com os pacientes desde o primeiro ano do curso, através de um currículo integrado, que visa a formação de um médico crítico, humano, realista e ético. Estes terão, quiçá, maior facilidade de conviver com a dor, o sucesso e o insucesso, a perda e a morte.

PERFIL

José Carlos Rosa Pires de Souza.
Médico. Natural de Campo Grande.
Especialização: Psiquiatria, Medicina do Sono, Administração Hospitalar.
Função atual: Consultório médico, professor  do curso de Medicina na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). Doutor e pós-doutor em Saúde Mental

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