Família é a principal responsável pelo abandono dos portadores de transtorno mental pelas ruas de Corumbá, todos tem direitos e deveres!

Não é difícil andar por Corumbá e se deparar com portadores de transtorno mental desnorteados pelas calçadas e até mesmo meio de avenidas movimentadas. Confundidos com mendigos, bêbados e/ou usuários de entorpecentes – e, muitas vezes, também integrando essas três categorias-, estes indivíduos acabam oferecendo perigo à vida dos outros e à própria vida.

Recentemente, na Avenida Rio Branco, uma motociclista quase derrapou ao frear bruscamente desviando de um rapaz que se jogou no meio da via. O rapaz que é conhecido por vagar pelo meio-fio da Avenida Rio Branco, já se envolveu em outros casos de agressão verbal e física, além de congestionamento de trânsito por transitar no meio da pista. Felizmente, nada grave aconteceu. Mas poderia ter ocorrido.

A responsabilidade por portadores de transtornos mentais
A responsabilidade por indivíduos que sofrem de transtornos mentais é um assunto delicado, especialmente quando estes são abandonados pelos familiares ou não apresentam os mesmos próximos – alguns provem de outras cidades e devido a ausência de documentos, a identificação de familiares é lenta e árdua. O Estado junto ao município se responsabiliza em ofertar o acesso aos direitos sociais de todos os cidadãos: “Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, ao trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 26, de 2000)”, mas não pode obrigar um cidadão a gozar destes direitos. Justamente por isto, o poder público não pode ferir o direito universal do ser humano que é o de sua livre-escolha – a liberdade é um direito intransferível.

Logo, a Prefeitura e seus órgãos de saúde competentes como os Centros de Apoio Psicossocial (CAPS) não pode atuar “obrigando” um individuo a recorrer a um tratamento, deslocando-o a força para uma unidade compatível com o transtorno. Salvo casos graves como surtos agressivos em que o SAMU é chamado para a estabilização do paciente – mas este não é obrigado a permanecer nos domínios do Hospital – ou quando o Ministério Público é acionado e por ordem de um juiz ocorre a chamada internação compulsória, mas esta mesma é ainda discutida nos campos legais se encontra-se dentro dos parâmetros da ética.

“Por falta de conhecimento, muitas pessoas acham que a Prefeitura junto com o Caps tem o dever de tirar as pessoas com transtornos nas ruas e trazê-los à força para cá. Isso é crime. A Constituição garante ao cidadão o direto de ir e vir. É passível até de queixa na polícia civil” explica a psicóloga Evelin Marcarini, coordenadora do CAPS II José Fragelli “Já a família é a única que possui esse respaldo legal de solicitar uma internação imediata. Mas nós sempre aconselhamos ao diálogo, ao tato. Uma vez estando a família ao lado do individuo transtornado, o acesso do mesmo aos nossos centros para o acompanhamento psicossocial já se torna mais fácil e efetivo”.

Conclui-se que a responsabilidade é compartilhada nas três esferas: Estado, família e individuo. A família, todavia, é o alicerce das demais, uma vez que o Estado não pode atuar sem sua autorização, e o indivíduo, isento de Seu raciocínio pleno, dependerá da família para melhor agir sobre sua conduta.

Preconceito gerado pelo desconhecimento
Casos de transtorno mental, que são inúmeros, não são raros, porém ainda estão sob um véu de preconceito gerado especialmente pelo desconhecimento. A vergonha e o despreparo no tato com um portador de transtorno mental são os grandes catalisadores para o abandono dos mesmos.

“Existe uma grande estigma em cima do ser “louco”, fruto do desconhecimento acerca dos transtornos mentais. É curioso que muitos pacientes vêm até nós alegando estarem depressivos, pois a depressão é socialmente “mais aceita” do que uma esquizofrenia, por exemplo. Há um grande passo entre o sujeito se identificar como portador de um transtorno mental e buscar ajuda, isso demanda tempo e principalmente apoio emocional. O que mais acontece é das pessoas desenvolverem transtornos mentais e acabarem sendo oprimidas pelo próprio meio onde vivem” explica a psicóloga “Alguns chegam de buscar na bebida, nos entorpecentes, uma válvula de escape e isto agrava ainda mais o caso. O contrário também é muito comum: os entorpecentes serem os propulsores de um transtorno mental. É por isso que o acompanhamento é imprescindível, e quanto mais cedo, melhor será o tratamento”.

Os transtornos mentais, todavia, não possuem uma cura. Segundo a psicóloga, o tratamento faz diminuir os sintomas e proporciona uma qualidade de vida aceitável ao paciente, se o mesmo seguir a risca a medicação e a terapia necessária. É nesse quesito que o apoio familiar é mais do que preciso.

“Algumas famílias acham que depois de um tempo de tratamento o individuo está apto a viver sem um acompanhamento clinico. Infelizmente os transtornos psíquicos são passíveis de retornarem”.

Para a psicóloga, Corumbá está passos a frente na saúde do Estado. A Prefeitura vem fazendo um excelente trabalho no apoio as CAPS. Mas este investimento não é suficiente se não há o apoio da própria população.

Não adianta termos uma unidade bem estruturada, com uma equipe treinada para toda a assistência necessária. Precisamos que a família de um usuário de nossos centros atue no acompanhamento. Os casos que vemos nas ruas, de pessoas visivelmente transtornadas e precisando de segurança, de acompanhamento clínico e principalmente de apoio emocional denunciam um despreparo e o desconhecimento da sociedade acerca dos transtornos mentais. A família não deve sentir vergonha e abandonar o familiar. Ela deve ser firme e buscar nos órgãos competentes a ajuda necessária. Nós nunca recusamos atendimento e aliás Corumbá possui todos os mecanismos necessários para auxiliar nesse longo e difícil tratamento. É difícil… mas é uma vida em jogo. A integridade física de indivíduos abandonados pela cidade se torna extremamente vulnerável, além dos mesmos oferecerem perigo aos outros, pois não estão dentro de suas faculdades mentais saudáveis”.

CAPs: Incluir e não segregar
No Brasil, os cuidados com a saúde mental no sistema público sofreram uma reforma que começou há quase 20 anos e que procura evitar as internações em hospitais psiquiátricos, criando mecanismos de diagnóstico e tratamento mais amplos, com equipes multidisciplinares. Um dos exemplos da mudança é a criação dos Centros de Atenção Psicossocial, os Caps, implantados no Brasil em 1986 e que hoje já somam 1.620 em todo o país.

A nova política de saúde mental visa o tratamento em rede substitutiva, ou seja, em locais que o paciente possa frequentar, sem a necessidade de passar longos períodos internado, longe da convivência familiar e comunitária.

Em Corumbá, O CAPS é dividido em 3 centros com especificidades distintas: O CAPs AD relacionado a dependentes do álcool e entorpecentes, o CAPS II Fragelli, que atende especificamente os transtornos mentais de 18 à 60 anos, e o CAPS Infantil que estende o atendimento do CAPS II aos menores de 18 anos.

O CAPS II Fragelli se mudou em 2014 da sede na rua América para um sobrado na rua Tenente Melquíades esquina com a rua Colombo, ampliando seu atendimento que além do acompanhamento clínico, oferece atividades intersetoriais que envolvem educação, assistência social, trabalho, saúde, esporte, cultura e lazer, monta estratégias conjuntas para enfrentamento dos problemas.

“Nosso atendimento é simples. Se a pessoa desejar ter nosso auxílio, apenas precisa vir até nós no CAPs II, trazendo o familiar ou a si mesma, se for o caso. Muitos se preocupam com a discrição, e nós trabalhamos de maneira mais ética possível. Atendemos pela manhã e pela tarde, e estamos sempre abertos a recepcionar novos usuários. O que não pode acontecer é o desleixo. Transtornos mentais são sérios e não desaparecem sozinhos. É preciso de muita ajuda, apoio e atenção”.

O CAPs II JoséFragelli fica na rua Tenente Melquíades de Jesus 917 – Centro, esquina com a Rua Colombo. Telefone: 3907-5094.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s