Profissionais e pacientes defendem os serviços do Caps em mobilização

A tarde de ontem, foi de mobilização para o Centro de Atendimento Psicossocial (Caps) e Centro Social de Atendimento Psicossocial Álcool e Drogas Caps AD) de Venâncio Aires e para os demais localizados no país. Com faixas e cartazes, profissionais que atendem nos locais e pacientes estiveram reunidos no pátio do Posto de Saúde Central às 14h para protestar contra a indicação do novo coordenador de Saúde Mental do país, o médico psiquiatra Valencius Wurch Duarte Filho.

Foto: Alvaro Pegoraro / Folha do MateMobilização foi, na tarde de ontem, no Posto de Saúde Central
Mobilização foi, na tarde de ontem, no Posto de Saúde Central

De acordo com a terapeuta ocupacional que atua na área de saúde mental no município Cristina Martins, a indicação do médico é desfavorável, pois ele foi proprietário de hospital psiquiátrico no Rio de Janeiro que foi fechado pelo Ministério Público em função de maus tratos aos pacientes, negligências e atendimento inadequado. “Esse profissional não pode nos gerenciar, administrar a saúde mental no país. Fica difícil aceitarmos uma pessoa que tem institucionalizado que manicômio é bom. Precisamos de alguém com mais sensibilidade e que seja da nossa luta antimanicomial.”

Segundo Cristina, o médico defende a ideia de que os hospitais psiquiátrico devem ser moradias dos pacientes. Na opinião dela, os hospitais psiquiátricos são benéficos quando o paciente não consegue ficar em hospitais gerais. Nesses casos, ela observa que a internação deve ser pelo período de um a dois meses. “Depois desse período, os pacientes precisam voltar para o seio familiar, para o estudo, trabalho e serem tratados com serviços que temos aqui. Lutamos para que o hospital especializado em saúde mental não se torne moradia para as pessoas.”

Cristina ressalta que, mesmo o fato do médico ainda não ter se manifestado, os profissionais da área conhecem a trajetória dele. Com ele no cargo, os serviços irão retroceder. Segundo ela, entre os pontos negativos dos manicômios como forma de residência para as pessoas estão a perda da individualidade dos pacientes (porque tem hora para acordar, dormir e fazer as refeições); não podem utilizar garfo e faca e o retorno da infantilidade. “As pessoas regridem, porque o hospital que gerencia a vida delas. Na maior parte do tempo, elas ficam ociosas, mendigando e pedindo coisas que o hospital não oferece na porta para quem chega.”

Para Cristina, é complicado negar a vida em sociedade para essas pessoas, pois mesmo com a doença mental sendo crônica, é tratável e o paciente pode ter uma vida normal na maioria dos casos. A profissional ainda compara outras doenças com as de Saúde Mental no quesito tratamento. “Se não tratarmos uma diabete ou hipertensão, por exemplo, essas duas doenças se tornam tão graves quando as mentais. Nem por isso, os pacientes vão para manicômios.”

Caso o médico assuma a função de coordenador da Saúde Mental do país, Cristina observa que, além da construção dos hospitais, há o temor da diminuição de verba para os atendimentos do Caps. “Se os municípios não poderem arcar com o restante das despesas, nosso medo é que as unidades acabem tendo que fechar.” A verba do Caps vem por meio do Governo Federal com administração das prefeituras. O Estado auxilia com as diretrizes.

Para nós, seria uma satisfação não ter que exilar pacientes em manicômios. Isso é retroceder na Saúde Mental,

Cristina Martins, terapeuta ocupacional do Caps

 

O Centro ajuda o paciente e a família
O Caps, tanto o normal como o AD, além de trazer o benefício para o paciente, também auxilia a família. Atualmente, além da rede de atendimento aos pacientes, há a Associação chamada de ‘Reviver’ que envolve aqueles que passam por tratamento, amigos do Caps e familiares. O grupo realiza atividades como excursões, passeios e festas de fim de ano. “Isso cria um laço de amizade e convivência entre todos. Uma adaptação também é feita para a família, para que eles aprendam a lidar com as situações de doença mental. Ajudamos a família a entender e viver melhor.”

De acordo com Cristina, nos dias de hoje, a forma de tratamento que os Caps do país oferecem é o modelo mais adequado para os pacientes. “Os pacientes são tratados aqui, alguns todos os dias, outros não. O importante é que voltam para casa à noite e tem o apoio familiar que é fundamental e a base.”
“O Caps é a minha segunda casa”
A jovem Crislaine Silveira, 29 anos, que reside no bairro Cidade Alta, é atendida pelo Caps há cerca de 19 anos. “Aqui é meu segundo lar. Amo todos daqui, porque me ajudam muito. As pessoas e o atendimento do Caps mudaram a minha vida.” Ela destaca que os profissionais, além de lhe atender, são considerados como amigos e irmãos. “Eu era muito revoltada. Passei a ser melhor e a mudar com o tratamento. Tudo que eu preciso eu encontro aqui.”

Por anos, Clério Araújo, 41 anos, atuou como pedreiro. Há cinco anos, por volta de 6h30min quando se dirigia para uma obra em Santa Cruz do Sul, foi assaltado por 15 pessoas. Alguns do grupo, eram menores. Ele foi agredido, sofreu traumatismo craniano e ficou internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por um período. Devido ao fato, teve sequelas e precisou de atendimento da área de saúde mental. Ele frequenta três vezes por semana o local. “Também entrei em depressão. Foi muito difícil para mim. O Caps me ajuda e o atendimento é ótimo.” Ele reside com os pais no Loteamento Bela Vista. “Eu me sinto muito bem aqui. Precisamos vencer essa luta contra os manicômios. Nos ajudem a vencer, o Caps é a nossa casa.” Conforme ele, o Caps é essencial.

A mãe de uma das pacientes também acompanhou a mobilização, na tarde de ontem. Marlene de Souza, que mora em Linha Sexto Regimento, diz que a filha, de 38 anos, recebe atendimento desde os 23 quando passou a ter problemas de transtorno emocional bipolar. “Sofri e chorei muito. Hoje, consigo manter minha filha instável com o tratamento graças ao Caps.” Tanto ela, quanto Crislaine e Clério são contra os manicômios, pois têm receio dos maus tratos e do afastamento da família.

 

 


A Rede de Atendimento
Atualmente, a rede de atendimento de Saúde Mental no município disponibiliza os dois Caps (transtorno mental e AD), unidade de acolhimento infanto-juvenil para crianças e adolescentes e Cies para crianças com déficit cognitivo. Os pacientes são atendidos por uma equipe multidisciplinar que conta com psiquiatras, psicólogos, nutricionistas, assistente social, neurologista, enfermeiros e terapeuta ocupacional. O atendimento é individual e em grupo. Conforme Cristina, estão cadastrados cerca de cinco mil pacientes no Caps que envolve pessoas do município, Mato Leitão, Passo do Sobrado e Vale Verde. Desse número, 1500 são atendidos de forma sistemática.

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