Desinstitucionalização leva pacientes psiquiátricos de volta para casa

da assessoria de imprensa da prefeitura de Sorocaba

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Nos dois últimos anos, 243 pacientes de hospitais psiquiátricos de Sorocaba já tiveram alta médica dentro do processo de desinstitucionalização. Hoje foi a vez de Gelso Mazzaro, que de avião foi ao encontro da família, no Paraná

Às 13h37 desta quarta-feira (02) a vida de Gelso Aparecido Mazzaro, 51 anos, iniciou uma reviravolta. E tudo se confirma que para melhor. No aeroporto de Viracopos, em Campinas, pela primeira vez na vida subiu num avião, ou ‘ônibus voador’ como ele prefere chamar. Sem ressentimento, deixou para trás um passado do qual acredita que, com exceção dos amigos, não vai sentir saudade. Até então, era interno da ‘Ala 2’ do Hospital Psiquiátrico Vera Cruz, onde viveu por seis anos e, antes disso, em uma unidade de internação em Franco da Rocha (SP). Recebeu alta médica e agora vai viver com a família, em Vera Cruz do Oeste, cidadezinha no Paraná, a 113 quilômetros de Foz do Iguaçu, onde desembarcou às 15h10.

A exemplo de Mazzaro, de 2013 para cá 48 internos que estavam em hospitais psiquiátricos de Sorocaba voltaram para o berço da família. Somados a outros 176 que passaram a viver em Residências Terapêuticas (RTs) no município e mais dezenove em outras cidades, sobe para 243 o total de altas médicas como parte do processo de desinstitucionalização de pacientes de saúde mental na cidade. “Isso é um recorde. Pela primeira vez na história vi o número de altas ser maior que o óbitos entre pacientes internados em hospitais”, ressalta a coordenadora de Saúde Mental de Sorocaba, Mirsa Elisabeth Dellosi.

As mortes de pacientes de saúde mental totalizaram setenta em Sorocaba no mesmo período, uma média de dois por mês, sendo que antes disso o número chegava a dez. “O último censo estadual que enfocou o setor de psiquiatria, que é de 2008, apontou que o número de óbitos era cem vezes maior que o de altas médicas. Os números de Sorocaba comprovam o sucesso do processo de desinstitucionalização colocado em prática”, analisa Mirsa, que coloca Mazzaro como resultado positivo desse trabalho.

Natural de Umuarama (PR), Mazzaro é analfabeto e vai morar com o pai, a irmã e a sobrinha. Fumando um cigarro de palha respondeu com um “Tô” à pergunta se estaria feliz por voltar para casa, feita pela equipe técnica ainda no Hospital Vera Cruz. Da janela do carro acenou com um tchau para os amigos e seguiu para o aeroporto acompanhado do enfermeiro Thiago Sabio. De bagagem, uma mala e uma mochila contendo roupas, medicamentos e guloseimas para a viagem. “Ele esteve bem tranquilo de uns dias para cá. Vai dar tudo certo”, comemorou Thiago. O otimismo do enfermeiro que acabou se confirmando. Receio contra, nem mesmo o quadro de saúde de Mazzaro, que requer cuidado extra devido a uma hérnia.

“Ficou com um pouco de medo na hora de passar pelo equipamento de raio-x do aeroporto, mas uma conversa resolveu tudo”, relatou Thiago. No desembarque no Aeroporto de Foz de Iguaçu a surpresa foi a presença da irmã e do cunhado de Mazzaro. Depois, mais duas horas de carro até Vera Cruz do Oeste, cidade de 8.973 habitantes, de acordo com Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Antes, houve a despedida a Thiago. “Ele me perguntou se não me veria nunca mais. Falei que ainda posso um dia ir visitá-lo. O Mazzaro estava muito feliz, ficou muito contente em encontrar com a irmã”.

Mirsa não escondeu o sentimento de alívio com desfecho conforme o planejado. “Foi um desafio para nós. Todos aqui estávamos rezando, embora nossa aposta já era de que tudo daria certo”. As despesas com a viagem foram custeadas pela Prefeitura, que está à frente do processo de desinstitucionalização e pela primeira vez realizou uma operação do tipo.

Na dianteira

Conforme Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado em dezembro de 2012, junto ao Ministério Público, entre Prefeitura, Estado e Governo Federal, o prazo para conclusão do processo de desinstitucionalização é dezembro de 2016. Na ocasião da assinatura do acordo, havia no município 1.372 leitos de internação em quatro hospitais (Vera Cruz, Teixeira Lima, Mental Medicina e Jardim das Acácias). Os três últimos foram fechados em junho de 2015, julho de 2014 e fevereiro de 2014, respectivamente.

Em temos regionais, a desinstitucionalização em Sorocaba leva vantagem. De 2010 para 2015 houve redução de 65,3% nos leitos de psiquiatria do Sistema Único de Saúde (SUS), passando de 1.355 para 470. Já o índice regional, levando em consideração outros três hospitais ainda em funcionamento, é de 2,82%, com queda total de 1.423 para 1.383 na quantidade de leitos no mesmo período. “Estamos muito à frente. Estamos fazendo a nossa parte”, frisa Mirsa.

Quanto ao Hospital Psiquiátrico Vera Cruz, por determinação da Justiça ele está sob intervenção da SES e é o único em funcionamento na cidade de Sorocaba. Embora possua capacidade para atender 512 pessoas internadas, com a saída de Mazzaro, atualmente são 470, dos quais 153 são de Sorocaba e os demais são naturais de outras 96 cidades do País. O Instituto Moriah é a organização social que até o dia 22 de dezembro está responsável pela manutenção desta instituição, além de um Centro de Atenção Psicossocial (Caps III) e de 12 Rts.

A SES já abriu chamamento público para seleção de nova entidade para assumir o serviço no último ano de operação do Vera Cruz. As propostas dos interessados serão conhecidas no dia 9 de dezembro. Para que a mudança não comprometa o processo de desinstitucionalização, a Prefeitura de Sorocaba criou um grupo de profissionais da rede municipal para acompanhar e dar continuidade ao trabalho.

Para promover a desinstitucionalização, Sorocaba tem realizado, dentre outras ações, a constituição de uma sólida Rede de Atenção Psicossocial (Raps) composta por pontos de atenção integrados em uma teia articulada, complexa, intersetorial e multiprofissional. A Raps de Sorocaba está sendo revisada, projetada e constituída conforme previsto no TAC. São componentes da Raps as Unidades Básicas de Saúde (UBSs), as equipes de consultório na rua, as unidades de acolhimento, os Caps, as RTs, os leitos de retaguarda hospitalar, entre outros serviços.

A Raps será constituída por CAPS tipo III, com funcionamento 24 horas. Nesta configuração, estão previstos para 2016 em Sorocaba: 03 Caps I (infantil), 03 Caps AD III (álcool e drogas) e 03 Caps III, exatamente divididos para as regiões em saúde do município (Leste, Oeste e Norte). No momento há em operação 03 Caps I, 02 Caps AD III e 02 Caps III.

Arqueologia da identidade

A equipe da Saúde Mental da SES faz um trabalho de “arqueologia da identidade” dos pacientes do Hospital Vera Cruz, por meio de conversas e pesquisas, para identificar quem ainda tem algum familiar. “Cada caso é analisado para que seja definida a melhor maneira de reinseri-lo na sociedade, o que é de direto dele. Foi desse jeito que descobrimos a família de muita gente, inclusive de Mazzaro”, mencionou a coordenadora da área.

Na tentativa de viabilizar novas transferências para RTs, a SES oficiou 25 prefeituras de municípios de origem de 199 internos que estão sendo tratados em Sorocaba. Hoje, há 26 RTs em funcionamento em Sorocaba, abrigando 270 ex-internos de hospitais psiquiátricos. “O assunto ainda é divergente, mas há o modelo de RT2 para casos mais extremos, onde haveria acompanhante 24 horas. Todos têm o direito de voltar a viver em sociedade, mas ainda existe resistência por parte da sociedade em ver esses pacientes fora do hospital”.

Juliana Godói é funcionária do setor administrativo do Hospital Vera Cruz e admite que fica emocionada a cada paciente que deixa a instituição. Este ano foram 92. “A gente sente saudade, por mais que saiba que eles vão viver num lugar melhor. Aprendi a escolher manga com o Mazzaro. Pegava a fruta e ele me explicava porque uma estava melhor que a outra”, revela, segurando para não chorar na despedida do amigo. Também foi Juliana que recordou que Mazzaro, há um ano, viajou para a cidade de sua família, mas de carro. Ficou trinta dias e retornou a Sorocaba para tratar da hérnia, pois em Vera Cruz do Oeste não havia atendimento adequado e lá ele correria risco de morte.

“Agora vou para minha casa para não mais voltar”, anunciou Mazzaro ao enfermeiro Thiago, como garantia de subir no avião, ou melhor, no ‘ônibus voador’. Ao se despedir do enfermeiro, em Foz do Iguaçu, fez de novo a mesma promessa.

“Essa história do avião que voa surgiu no dia a dia, no trabalho de garantir um embarque sem imprevistos”, explicou Thiago. Ocasião que Mazzaro também confidenciou o sonho de passar, pela primeira vez, o Natal ao lado da sobrinha. E, pelo que parece, seu desejo tem tudo para virar realidade.

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