Reino Unido torna-se o primeiro país do mundo a aplicar a FIV com três pais

A lei que permite a fertilização in vitro (FIV) com o uso do material genético de três pessoas – duas mulheres e um homem –, de forma a evitar a transmissão certas doenças genéticas graves, entrou esta quinta-feira em vigor no Reino Unido, como se pode ler no site do Parlamento britânico.

Aquele país torna-se assim o primeiro a autorizar a geração de pessoas com linhagens genéticas provenientes de três pessoas.

A medida foi pensada para evitar as doenças genéticas que estão associadas às mitocôndrias, e que afectam uma em cada 6500 crianças.

As mitocôndrias são pequenas estruturas que existem dentro das células do corpo e que contêm um pequeno anel de ADN próprio (menos de 0,2% do total do genoma humano), independente do ADN do núcleo celular, que é o que rege a esmagadora maioria das nossas características genéticas.

Como são as mitocôndrias que geram a energia necessária às funções celulares, as doenças genéticas associadas às mitocôndrias afectam os órgãos que necessitam de muita energia, tais como o cérebro, o coração ou o fígado.

E há também outra diferença entre o ADN das mitocôndrias e o resto do genoma. É que o ADN mitocondrial não é transmitido de geração em geração da mesma forma que o ADN nuclear (ou seja, metade pelo pai e metade pela mãe). Cada pessoa herda as suas mitocôndrias – e o seu ADN mitocondrial – exclusivamente da sua mãe, dentro do ovócito que lhe dá origem.

Mas se uma mãe tiver uma doença genética das mitocôndrias, vai transmiti-la aos filhos. E de facto, as mutações nos genes mitocondriais podem provocar surdez, diabetes, doenças cardiovasculares, epilepsia e até doenças mentais. Algumas doenças são mais ligeiras, mas outras são potencialmente mortais –  e não têm tratamento nem cura.

Para evitar essas doenças, existe contudo uma técnica, desenvolvida por cientistas da Universidade de Newcastle: uma FIV que passa pela utilização de ovócitos doados por uma mulher com mitocôndrias saudáveis e previamente esvaziado do seu próprio ADN nuclear.

O ovócito dessa mulher irá portanto funcionar como “ovócito de aluguer” (gratuito) para o ADN dos pais genéticos do futuro bebé. E o bebé terá assim uma pequena porção de material genético “alheio” – os das mitocôndrias dessa segunda mulher. Quanto à dadora de ovócitos, ela permanecerá anónima e não terá, segundo a nova lei, quaisquer direitos legais sobre a criança.

Algumas das críticas que se ouviram no Parlamento britânico no início do ano, antes da aprovação da lei, tinham a ver com o facto de se estar assim a abrir a porta a manipulações genéticas e à eugenia.

Por seu lado, os defensores da nova técnica argumentavam que não se estava a pisar nenhum risco vermelho na manipulação genética e que esta era a melhor forma de evitar este tipo de defeitos genéticos.

Foi este ponto de vista que acabou por vingar no Reino Unido – e esperam-se agora os primeiros “bebés com três pais”, talvez já para o ano.

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