Diários de um jovem psiquiatra no SUS

Parte 1 – olhos

De certa forma, todo aluno de medicina de uma universidade pública tem contato com o SUS desde seu primeiro paciente. Porém, o SUS dos hospitais universitários é bem diferente da média. O vínculo acadêmico tende a segurar bons profissionais e garantir melhores investimentos, tornando-os ilhas de excelência. Na faculdade, aprende-se o que é o SUS no papel, um sistema complexo e ideologicamente muito bonito. A realidade é bem diferente.

Meu primeiro contato com a psiquiatria fora do HC foi breve, quando fiz uma visita ao CAPS Itapeva durante o internato. O que vi foi um serviço instalado em um lindo casarão na avenida Paulista, um dos primeiros serviços substitutivos aos hospitais psiquiátricos no Brasil, que serviu de modelo ao desenvolvimento da reforma psiquiátrica. Profissionais de referência na área, estagiários, ciclos de palestras e projetos sociais, algo ainda muito parecido ao clima dos hospitais universitários. Ouvi pela primeira vez nomes como Franco Basaglia (psiquiatra Italiano, um dos líderes do movimento pelo fechamento dos hospitais psiquiátricos), e Ronald Laing (expoente da antipsiquiatria). Foi um contraponto interessante ao aprendizado em psiquiatria moderna, científica e padronizada, da formação ortodoxa.

Mas, o que realmente me marcou naquela visita foram os pacientes. Especialmente seus olhos. Havia dois tipos de olhares: os ativos, assustados, desconfiados, que ziguezagueavam sem parar; e os dóceis, submissos, evitativos, que abriam sorrisos e buscavam um contato débil, tímido. Ambos eram diferentes dos olhos vazios, tenebrosos, que eu já tinha visto nas enfermarias psiquiátricas. E dos olhos calmos e intencionais dos pacientes mais recuperados. Desde muito cedo ficou evidente para mim o quanto os olhares são importantes na psiquiatria.

Três anos depois, já na residência, outra oportunidade de sair do ambiente universitário: estágio de um mês em um CAPS no interior do Tocantins. Ali eu conheci o SUS. O CAPS era um serviço muito bem montado. Tinha um bom número de profissionais e funcionava de acordo com as diretrizes do modelo: acolhimento, equipe multiprofissional, visitas domiciliares, oficinas, atendimento familiar e foco na reinserção social. Havia uma APAE na cidade, que fazia questão de roubar os residentes que estagiavam no CAPS por algumas horas, para atender as crianças, porque não havia médico. Temerário, já que éramos residentes sem nenhuma experiência em psiquiatria infantil. Mas, é assim que anda o SUS real: melhor qualquer um atendendo que ninguém.

Certa vez, ouvimos o boato de que uma paciente, que só tinha ido a uma consulta, havia tentado o suicídio na noite anterior. Decidimos fazer uma visita domiciliar. No bairro onde ela morava as casas eram de barro, exatamente da cor do chão. Era como se fossem invisíveis. Fomos recebidos pela mãe, que não parou de lavar louça e apenas gritou para que entrássemos. O chão do quintal era o mesmo do interior, terra batida. A mãe nos levou à sala de onde pendia a corda que a filha usara para tentar se enforcar. Fiquei boquiaberto vendo aquilo. O que significava que ainda estivesse ali? Quem deixa a forca pendurada em casa? A mãe chamou a menina de dentro de um quarto muito escuro. A primeira coisa que vi foram seus olhos, de brilho pálido, caminhando em nossa direção. Ela carregou a escuridão do quarto em sua pele, mas a de seus olhos era ainda maior. Eu viria a me acostumar a ver olhos tristes, patologicamente tristes, mas aqueles ainda me impressionam. Conversamos, demos o apoio possível, convidamos ao CAPS. Se fosse hoje, eu teria pedido um banquinho e tirado aquela corda do meio da sala. Mas, eu era jovem e tolo, e fui embora emulando a indiferença que mãe e filha dispensavam àquele obelisco lúgubre.

Os olhos mais terríveis que já vi, porém, não eram tristes. Pelo contrário. Muitos anos depois, eu trabalhava com o PSF (Programa Saúde da Família). Fui com a equipe à residência de uma família na Luz, zona central de São Paulo. Um bairro cheio de casas antigas, sobrados geminados, lojas, e galpões. Eu não tinha ideia, mas o interior das casas ali não guarda relação com as fachadas. Por dentro, são sequências de cômodos onde famílias inteiras se aboletam em condições precárias.

O motivo da visita era um garoto de cinco anos, que vinha dando muito problema na creche. Arredio, nervoso, às vezes violento, pediram a avaliação do psiquiatra. O cômodo em questão ficava no alto de uma escada. Quando entramos, o menino brincava com folhas secas em um dos degraus. Não me olhou, mas riu para o chão quando a psicóloga da equipe entregou os lápis de cor que lhe havia prometido. A mãe nos recebeu com um olhar vago, parecia cansada e sem esperanças. O pai, que fumava lá dentro, tinha o olhar envergonhado. Tentava varrer o chão, que estava sujo e úmido, com bitucas de cigarro e manchas indistintas como se fosse o chão de um calçadão no centro. Havia uma cômoda velha e quebrada, e dois colchões de espuma exposta em cima de um estrado que servia de cama e sofá. Os pertences se acumulavam no chão, no colchão, e pendurados em redes nas paredes. No fundo, um berço. Fui até lá para ver o bebê, e ele me viu. Olhou para mim com olhos vívidos e alegres, e sorriu. Um sorriso sincero, puro, humano e desimpedido. A intensidade da alegria que esse tipo de olhar provoca foi a intensidade da tristeza que me acometeu quando vi, de súbito, toda a história dos seus próximos anos de vida. A história de como olhos nascem brilhantes, e se apagam tão rápido, em um País miserável.

Eu vi horrores trabalhando no SUS, mas nenhum tão terrível quando a alegria inocente nos olhos daquele bebê.

EYES GRAFFITI

Parte 2 – Violência

O senso comum associa a loucura à violência. Há muito preconceito nisso, mas também uma lógica. Acreditamos que a loucura se define pela inconstância, imprevisibilidade, pela fuga das normas e da racionalidade com as quais contamos para nos sentir seguros.

Quem convive com a loucura, no entanto, sabe que não é bem assim. A loucura não é irracional, mas responde a uma outra racionalidade. Ela tem padrões, tipos, “cara”; e quem sofre dela, os “loucos”, são indivíduos. Ser um indivíduo nada mais é que reconhecer uma tendência narrativa, um sentido na história de sua vida. A loucura assusta porque ameaça o sentido – é verdade – mas não o aniquila, como se pensa.

Minha primeira visita a uma enfermaria psiquiátrica se deu no quarto ano da faculdade. E foi um momento portentoso. As meninas da turma estavam assustadas, e os meninos disfarçavam com piadas (“Não perde o crachá, hein, se não ninguém te deixa sair”). Uma paciente tentou puxar o cabelo de uma colega. Outra gritava gracinhas para um aluno bonito. Nada muito diferente do que homens “normais” gritam em bares por aí, diariamente. Mas, nos corredores da Psiquiatria, tudo era razão para estranhamento.

Não precisou nem acabar a residência, no entanto, para que o ambiente de enfermaria se tornasse confortável. Acredito que é uma das habilidades mais fundamentais que aprendemos na psiquiatria: conviver com os pacientes. Sentar para conversar, observar seus comportamentos, aprofundar em suas intimidades e negociar os momentos difíceis. É fascinante ver como um fenômeno de adequação sempre surge, na mais violenta das crises. Como se algo dentro deles, que nem pode ser reconhecido, reconhecesse que não estão bem, e que precisam de ajuda. Surpreende os leigos, pois quem trabalha com isso sabe, que há muito menos chance de violência na enfermaria psiquiátrica que em uma viagem de metrô. Nem vamos falar em um estádio de futebol.

Mesmo assim, fazer psiquiatria no SUS ainda significa lidar de perto com a violência. Ela frequentemente aparece nas histórias dos pacientes: abusos; abandono; negligência; estupros; vivências traumáticas que estão estatisticamente associadas ao desenvolvimento de transtornos mentais. Além disso, muitos pacientes são vítimas de violência por sua própria condição. Os familiares relatam ameaças de vizinhos, perseguições, espancamentos, pois as atitudes estranhas dos pacientes não são socialmente aceitas. O Brasil está há, pelo menos, vinte anos em um processo de reforma psiquiátrica. Parte integral deste é que os pacientes sejam mantidos em suas comunidades, vivendo com a família e convivendo socialmente. Mas, ainda é difícil explicar isso para os vizinhos.

O mais sério, porém, é como graves problemas sociais são transformados em questões psiquiátricas. Essa é a forma mais perniciosa e, talvez, mais comum, pela qual violência e Psiquiatria se misturam.

Uma menina – chamada 23225 nesta reportagem – chegou ao hospital com onze anos. Ela morava em um abrigo desde os quatro. A mãe, usuária de crack, estava presa. A avó já não a queria mais. Havia uma história que, talvez, ela tivesse afogado uma criança no abrigo. Nunca conseguimos mais que boatos e sussurros sobre isso. A menina 23225 não tinha nenhum diagnóstico psiquiátrico, e recebeu alta nos primeiros dias. Mas ficou no hospital por seis anos, por determinação judicial, já que não tinha onde viver. Toda a sua adolescência, até os dezessete anos, trancada em uma enfermaria psiquiátrica. Eu deixei de trabalhar lá antes de vê-la ir embora.

Um menino com retardo mental leve foi cuidado pela mãe durante mais de cinquenta anos. Após a morte dela, não tinha mais nenhum suporte social. Os irmãos tinham medo dele. Diziam que não aguentariam o que a mãe suportou por décadas. Agora um senhor, o menino ficava muito bem no hospital, mas tinha crises horríveis quando voltava para casa. Chegou a espancar um parente. Nunca foi criminalmente processado, mas, por determinação judicial, passou a ficar internado sem autorização de alta.

Em um serviço especializado em dependência química, um CAPS-AD, próximo a São Paulo, as condições são precárias. Faltam vidros nas janelas, chuveiros quentes e roupas de cama. Os pacientes vêm para passar o dia, mesmo sem ter muito o que fazer. Ficam horas em uma sala vendo TV. Traficantes fazem ponto na porta. Os que dormem lá têm autorização para fumar nos quartos, pois os funcionários não se arriscam a sair à noite para acompanhá-los.

Uma adolescente internada por dependência química teve uma ótima evolução durante o tratamento. Fez um bom vínculo com a equipe, conseguiu reduzir as doses de medicações, recuperou muito da relação desgastada com a mãe. Estava pronta para a alta. Mas, seu caso estava sendo acompanhado pelo PPCAM (Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte). Eles precisavam encontrar um endereço para realocar a família. Nisso, a menina foi ficando, por meses e meses, sem poder voltar para casa. Frustrada, voltou a piorar e quebrou uma janela para se cortar com os cacos de vidro. Engoliu um, que teve de ser removido cirurgicamente.

Todos esses são casos em que condições básicas de vida não foram supridas. A relação afetiva com um cuidador principal; o reconhecimento familiar e social; o acolhimento em serviços de saúde dignos e efetivos; a oportunidade de viver em uma sociedade saudável, ser respeitado e vislumbrar um futuro. Quando essas coisas são violentamente negadas, o tratamento psiquiátrico já vem tarde demais. E, pior, vem como ainda mais uma violência. Internações compulsórias são corriqueiramente usadas como residência temporária – para abrigar quem não tem casa ou família – ou como prisão – restringindo a liberdade de indivíduos, julgados violentos por determinações judiciais autoritárias, sem o devido processo legal.

E, assim, convivem psiquiatria e violência. Não pelo comportamento dos loucos, mas pela loucura da sociedade em que vivemos.

(Exceto pelo caso da menina 23225, que já havia sido relatado em detalhes na mídia, os outros são mais ou menos fictícios. São recortes de diversas situações verídicas, sem expor nenhum caso específico).

EYE COLLAGE

Parte 3 – Manicômio

Logo no primeiro ano após a residência comecei a trabalhar no Pinel. Hospital tradicional, da época dos grandes manicômios. Localizado em Pirituba, zona norte de São Paulo, e mantido pelo governo do Estado. Contratação para serviço público, como se sabe, se dá por concurso. Concurso para hospital psiquiátrico é assim: publica-se que existem vagas no diário oficial. Quem se habilitar, passou.

Isso foi 2003. A reforma psiquiátrica vinha acontecendo há alguns anos, e o Pinel já não era um manicômio. Na verdade, com o fechamento de muitos leitos manicomiais por todo o Estado, o Pinel era um dos destinos para onde iam os pacientes crônicos. Casos com mais de três décadas de internação, que já não tinham mais família, ou condições de viver com o que tivessem.

Chegar ao hospital desanuviou minhas preocupações, que vinham crescendo conforme a viagem até lá demorava a terminar. Muito arborizado, predinhos coloniais, a recepção parecia uma sede de casa de fazenda. Revoadas de maritacas. Cheiro de mato e orvalho. Percebi que seria gostoso trabalhar ali.

Fui apresentado ao hospital. Edificações espalhadas comportavam diferentes serviços. A enfermaria masculina, onde se cuidavam dos pacientes agudos, em crises graves, com internações curtas (a média proposta era de quinze dias, a real em torno de vinte e oito). A enfermaria de infância e adolescência (que surpresa! Não sabia que havia uma). O CAPS infantil, que ficava dentro do hospital, mas com uma entrada separada, como mandava as exigências da reforma. O “convívio”, ou serviço de reinserção social, onde ficavam os tais pacientes manicomiais. E os lares abrigados, conjunto de residências onde dois a quatro pacientes viviam, como se estivessem de alta, mas ainda dentro do hospital. Além dos vários prédios administrativos, quadra de esportes, biblioteca, refeitório, viveiro de aves, frota, anfiteatro, etc. Impressionante.

Eu começaria a trabalhar no Convívio. Estranhei, mais acostumado aos casos agudos e floridos da residência. Primeiro dia, impressões lúgubres. Na entrada do convívio, pacientes aglutinavam-se para interagir com o médico novo. A maioria idosos, ou envelhecidos, emaciados, dentes poucos. Muitos deitados no chão. Alguns, apenas uma casca torcida, suportados com uma faixa de lençol sob os braços para não caírem da cadeira. Comento com a enfermeira sobre o cheiro de urina. “Ah, deve ser dona T. A gente não vence limpar a roupa de cama dela. Já vou lá ver doutor”.

Os colegas me explicam o trabalho. A parte mais nobre, na verdade, é feita pela equipe multidisciplinar. Psicólogos e assistentes sociais procuram familiares, tentam fazer contato, insistem como podem para que seja possível uma reaproximação. Quando não dá, pelo menos, tentam trabalhar com os pacientes para que ganhem autonomia suficiente para os lares abrigados. Para os médicos, depois do primeiro mês, com os pacientes todos já bem conhecidos, não sobra muita novidade. Examina, conversa, cuida de possíveis agudizações e da condição médica geral, que também é precária em muitos deles. Dia, após dia, após dia. Raramente alguém vai de alta, raramente alguém novo aparece. Só quando fecham mais alguns leitos manicomiais, aí chega uma leva. Ou quando algum juiz resolve mandar internar alguém sem suporte social que não vai nunca poder ir de alta. Ou, ainda, quando um interno de manicômio judiciário – alguém que cometeu algum crime, mas foi considerado mentalmente incapaz – recebe alta e, recusado pelos apavorados familiares, não tem para onde ir. Aí a gente vai lá, conversa, conhece, cuida de possíveis agudizações e da condição médica geral. Dia, após dia, após dia.

Dona R, internada há mais de cinquenta anos, tinha o hábito de estender um pano no gramado, sentar e passar o dia se balançando para frente e para trás. Esse comportamento se chama “auto-ninar”. É observado em crianças que sofreram grande privação sensorial e/ou afetiva, como crianças hospitalizadas desde muito cedo, ou abandonadas. Harlow, em seus famosos experimentos com macacos criados sem mãe, observou o mesmo comportamento nos animais. Dona R devia se sentir muito só, naquela enfermaria apinhada de gente.

A atividade preferida dos pacientes era caçar bitucas de cigarro. O uso era permitido, mas controlado. Havia horários de dispensação de cigarros, efetuada pela enfermagem, da mesma maneira que a dispensação de remédios. Para fumar mais do que a cota, os pacientes andavam pelo hospital procurando bitucas pelo chão. Era impossível transitar pelas alamedas sem ser interrompido algumas vezes por pedidos de fogo. Alguns, mais espertos, já conheciam os horários em que certos funcionários poderiam ser encontrados fumando em seus lugares favoritos, e sabiam quais funcionários preferiam dar logo mais cigarros a ficar insistindo que não. Fumar bitucas deixava os dedos e lábios queimados, em tons de preto e açafrão.

Não se haveria de esperar as habilidades sociais mais bem desenvolvidas naquela população. Eram comuns as altercações por qualquer coisa: ciúmes bobos, pisadas no calo, mal-entendidos, quem pegou o quê de quem. Qualquer desavença se resolvia com socos, chutes, mordidas, pedradas. As violências entre eles irrompiam com facilidade, parte da cultura local. Contra funcionários era bem raro (às vezes, quebravam vidros dos carros). Violência dos funcionários contra os pacientes não ocorria nunca, exceto, na medida em que a internação prolongada é violenta por si só. Na verdade, eram nesses momentos exaltados que o vínculo com a equipe era testado. Sempre havia aquele funcionário que era melhor em acalmar aquele paciente. Que sabia o que dizer, como dizer, e, logo, estavam rindo como bons amigos. Talvez, até, essa recompensa fosse suficiente para perpetuar as tendências agressivas lá dentro. Devia ser uma preciosidade, para os pacientes, serem lembrados do vínculo com alguém.

Então, era um manicômio, o Pinel dessa época, ou não? Fechar leitos manicomiais e colocar os pacientes ali mudava alguma coisa? Os mais radicais prefeririam que não existisse meio termo, e que fossem todos os pacientes para suas famílias, ou para residências terapêuticas, ou sei lá para onde. Mas, para onde? Que fazer, de fato, quando se sai do campo das ideias, e se tem quase uma centena de pacientes sem nenhuma referência social?

Eu não fiquei muito tempo no convívio, saí de lá na primeira oportunidade de voltar a trabalhar com agudos. Sei que trabalham com enorme escassez de recursos, e fazem o melhor possível. Vi muitos pacientes saírem de alta, reconectados com familiares que só conheciam o tal tio maluco como uma vaga lembrança de infância. É um trabalho duro, frustrante, que exige enormes sacrifícios e determinação para cada rara recompensa. Admiro os profissionais que trabalham nisso, e ainda têm de aguentar os olhares enviesados dos militantes da reforma, que desprezam tudo o que se faz em hospitais psiquiátricos. Não se vê nos pacientes grandes melhoras clínicas, resultados técnicos. É um lugar onde se trabalha por resultados éticos. Não é para qualquer um.

PINEL HOSPITAL

Parte 4 – Infância

Foi por acaso que comecei a trabalhar com crianças no SUS. Só o que eu queria era sair da ala dos crônicos. A primeira oportunidade apareceu na enfermaria infantil do Pinel, então chamada NAPA.

Estranhei quando me ofereceram a vaga. Eu não tinha nenhuma experiência com psiquiatria da infância e adolescência. “Não tem problema” – disse o diretor – “se formos esperar um médico com especialização, ficaremos anos sem ninguém”. Lá fui eu, na cara e coragem.

A primeira semana foi muito interessante. Eu não conseguia tomar uma conduta sem checar livros, verificar doses, estudar critérios diagnósticos. Tudo era novidade e um tanto assustador. Os pacientes eram mais agitados, os gritos mais frequentes, os familiares mais angustiados. Mais do que isso tudo, eu confesso que tinha uma aflição com crianças doentes. Não em relação a cada uma delas, individualmente, mas ao conceito geral. Criança ficar doente me parecia um contrassenso, algo antinatural, uma afronta à minha querida preconcepção de infância feliz.

Um paciente, F., autista grave, ficava meses internado e, quando saía, logo voltava. O pai, às vezes, passava semanas no hospital, acompanhando-o. Chegávamos a sugerir ao pai que fosse para casa, descansasse um pouco. Verdade seja dita, F. ficava mais calmo sozinho. Mas, de que adiantava? Ele precisava mesmo era ficar bem com o pai. Neste ele batia, arranhava, tinha episódios em que gritava e se contorcia que o pai, calejado e cansado, ainda assim ia às lágrimas. F. usava umas sandálias de couro, iguais às de seu pai. Parecia um monge, aos 16 anos, com a face castigada e o olhar carregado que só os sábios e os loucos têm. Muito, mas muito de vez em quando ele ria, e nós ríamos com ele, e parecia que estávamos compartilhando um momento normal. O pai sorvia esses momentos como se fossem vinho.

O mais comum, porém, eram as “crianças difíceis”. Eram pacientes que, porque precisávamos de algum diagnóstico para os formulários oficiais, classificávamos como portadores de Transtorno de Conduta. Na verdade, não tinham nenhum diagnóstico psiquiátrico. Eram as crianças abandonadas em abrigos onde tinham de brigar com os mais velhos a unhadas. Eram as vítimas de abuso e negligência, com vivência de rua, com pais alcóolatras e mães que fumavam pedra, criados por avós que já não tinham mais de onde tirar uma gotinha de amor para dar. Nós recusávamos internações desse tipo, é claro. Mas eles vinham com o conselheiro tutelar, que os encontrara na casa vazia, sozinhos, acorrentados ao pé da cama; ou com o parecer da Defensoria Pública, que organizara um resgate com a PM e o SAMU para trazer o paciente à força pois estava agredindo a mãe; ou com ordem judicial da Vara de Infância, ou do Ministério Público, estipulando multa de cinco mil reais ao dia para a Secretaria de Saúde se não internasse o “menor” que ninguém mais aguentava no abrigo. Todos esses escabrosos casos de abandono social e afetivo eram encaminhados ao hospital psiquiátrico, como se fôssemos resolver alguma coisa.

Na hora de fazer a internação, eles não falavam, não olhavam para mim, cruzavam os braços e faziam caretas. Eu os levava para passear pelo hospital, mostrava o viveiro de aves, a quadra, o salão de jogos, e, aos poucos, eles se soltavam. Até que iam para a enfermaria e, assim que chegavam, gritavam e esperneavam e quebravam as janelas e batiam nas outras crianças, já mostrando quem manda. Eram crianças que não podiam mostrar fraqueza nunca.

Logo depois que eu comecei no NAPA, apareceu uma oportunidade de sair. O Pinel abriria uma enfermaria feminina, e pedia voluntários para a transferência. Era a minha chance de voltar a trabalhar com adultos. Naquele dia eu saí do NAPA logo após ter prescrito contenção no leito para um paciente agitado. Fui até a secretaria e coloquei meu nome na lista de transferência. Voltei, pensando estar aliviado. Fui ao quarto onde o paciente estava contido. Ele havia se acalmado, e solicitei que fosse desamarrado. Ficamos conversando uma meia hora. Lembro que eu falei qualquer coisa do tipo que pais falariam para filhos, sobre limites, escolhas e responsabilidades. Também falamos de videogames. Alguma coisa diferente aconteceu nessa conversa. Ele ficou feliz, e grato, por eu ter dito o que lhe disse. Lembro que olhei pela janela e vi F., no pátio, com seu pai. Eles estavam rindo. Estavam tendo um raro momento normal.

Desde esse dia, tenho profunda admiração pelos pais dessas crianças com transtornos mentais graves. É claro, quem não tem? Racionalmente, sabemos que eles merecem. Mas, eu tive uma epifania, naquele dia, sobre a qualidade rara desse amor. Talvez seja a única forma de amar um filho sem um pingo de egoísmo. Porque esse filho não vai ser seu espelho, não vai carregar suas expectativas, não vai ter sucesso onde você falhou. Muitos mal conseguirão retribuir o seu amor. Exceto por esses fugazes momentos, como os em que F. e seu pai riam juntos, com suas sandálias de couro. Ou, como quando um garoto agitado e agressivo ouve o que você diz, e reconhece algo que deveria ter sido dito por um pai há muito tempo, mas nunca foi, e, sem usar palavras, agradece a você por isso.

Naquele mesmo dia eu voltei à secretaria e retirei meu nome da lista de transferências. Acabei trabalhando por mais doze anos com crianças e adolescentes no SUS, chefiei o NAPA por dois anos, fui médico da Fundação Casa e de enfermarias de adolescentes dependentes químicos. Conheci uma enormidade de casos tristes, histórias trágicas, e colecionei momentos de desilusão, impotência e, até, desespero. Mas tive meus raros momentos normais, quando pude rir com eles. E sempre valeu a pena.

LEIA OS DIÁRIOS:

Parte 1 – Olhos

Parte 2 – Violência

Parte 3 – Manicômio

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