ALFENAS – Prefeitura sem previsão para instalar Caps AD, opção para tratar o dependente químico

Denise Prado

Embora o atual governo afirme reconhecer a importância da implantação do Caps AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas) não há previsão para sua instalação. A informação é do próprio governo que alega dificuldade financeira e afirma não haver nenhum projeto para implantação desse tipo de serviço em Alfenas.

O Caps AD – recomendado para cidades com mais de 80 mil habitantes – é um serviço específico para o cuidado, atenção integral e continuada às pessoas com necessidades em decorrência do uso de álcool, crack e outras drogas. Seu público específico é o adulto, mas também pode atender crianças e adolescentes, desde que observadas as orientações do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

Em Alfenas, vários profissionais da área psicossocial e da saúde mental vêm tentando convencer a administração pública a instalar um Caps AD e, recentemente, receberam um reforço que vem de profissionais do Judiciário, Sistema Prisional e da Delegacia da Mulher.

“Reforço” na reivindicação pelo Caps AD

Este “reforço” teve início com a realização de reuniões mensais a fim de propor medidas para diminuir a incidência da violência contra a mulher. Este trabalho vem sendo coordenado pela juíza Aila Figueiredo, da 2ª Vara Criminal, e com a participação do diretor da Unidade Prisional, José Roberto Fernandes, além de representantes das áreas relacionadas à violência doméstica.

A partir destas reuniões, o número de pessoas que têm o intuito de ajudar – sejam as vítimas de violência ou os agressores -, aumentou gradativamente. Hoje, faz parte destes encontros, além da magistrada e do diretor do Presídio de Alfenas, a delegada Renata Fernanda Gonçalves Rezende, profissionais da área psicossocial do presídio e do Fórum Milton Campos, representante da Apac (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados), além de representantes dos Cras (Centro de Referência de Assistência Social), Creas (Centro de Referência Especializado em Assistência Social), Caps e Conselho da Mulher.

A assistente social do Fórum, Luiza Helena Dantas, é uma das integrantes da equipe que procura por uma solução na luta contra a violência à mulher (Foto: Denise Prado/Alfenas Hoje)

Durante estas reuniões, várias propostas são apresentadas sempre buscando alternativas que possam ser eficientes no combate ao crime e na assistência às vítimas. Mas todas acabam caindo em um único problema: a falta de um Caps AD, que vem dando resultados considerados positivos em várias cidades onde foram instalados.

Para os participantes, cada setor poderia dar a sua contribuição, a exemplo dos profissionais da área psicossocial do Fórum e do Presídio que já iniciaram um trabalho junto aos agressores, mas o principal acompanhamento deveria ser de um Caps AD.

O mesmo vale para os profissionais do Creas, pois existe um consenso de que o problema da maioria dos agressores – e até mesmo das vítimas – é questão de saúde: por trás das agressões estão as drogas lícitas e ilícitas.

Uma das integrantes da equipe que procura por uma solução na luta contra a violência à mulher é a assistente social do Fórum, Luiza Helena Dantas. Segundo ela, um Caps AD “faria toda a diferença”, pois o índice de adesão às drogas – seja lícita ou ilícita – é alto.

Luíza lembra ainda que, encaminhar o usuário para tratamento pelo SUS (Sistema único de Saúde), é uma ação demorada e até ineficiente pela ausência de leitos. Portanto, um Caps AD teria a capacidade de trabalhar na prevenção, não só com o usuário, mas também com a família, “o que seria extremamente necessário, pois seria uma opção a mais para dar suporte à mulher que sofre violência e também para atender o agressor”, explica.

Sem apoio

Para uma diarista de 41 anos, ouvida pela reportagem e que pediu para não ser identificada, o Caps AD foi essencial quando morava em Varginha. Depois de muitas brigas com o marido depende alcoólico, ela o denunciou e esse chegou a ser preso. O homem foi solto sob a condição de procurar ajuda junto ao AAA (Associação dos Alcoólatras Anônimos) e ao Caps AD.

Depois de alguns meses, o casal e os filhos mudaram para Alfenas, onde morava a família de ambos. “Foi só voltar para Alfenas que ele começou a beber de novo, a faltar no serviço, a ficar me seguindo e as agressões voltaram”, conta a diarista. Hoje, o casal está novamente separado.

Há controvérsias

Em uma entrevista ao Alfenas Hoje, a coordenadora do Caps de Alfenas, Andréa de Lima, e a terapeuta ocupacional Gisele Reis Diniz falaram sobre o trabalho que é realizado no Centro de Atenção Psicossocial e, no caso da violência contra a mulher, a necessidade de se formar uma rede e fazê-la funcionar em prol do usuário – seja de drogas lícitas ou ilícitas.

A coordenadora do Caps de Alfenas, Andréa de Lima, e a terapeuta ocupacional Gisele Reis Diniz durante a entrevista (Foto: Denise Prado/Alfenas Hoje)

Para atender este programa almejado pela Justiça, as profissionais acreditam não ser um trabalho apenas de um Caps, mas ter toda uma rede funcionando. Para elas, não seria necessário tratar este determinado usuário em um Caps AD, pois o trabalho pode ser em qualquer um dos tipos existentes: I, II ou III. Mesmo porque o usuário é livre, ou seja, tem a liberdade de escolha.

Na discussão sobre a vantagem de se ter, ou não, um Caps AD, recai sobre a necessidade de este Centro Psicossocial estar conectado com toda a rede – tanto a social quanto a da saúde -, principalmente com os PSFs que, segundo as profissionais, seria a porta de entrada para qualquer tratamento sobre a questão das drogas e álcool.

Acima a unidade do Caps em Alfenas. Para especialistas, é necessário formar uma rede de trabalho em Alfenas (Foto: Denise Prado/Alfenas Hoje)

“Há a necessidade do olhar clínico em primeiro lugar, pois nem sempre o usuário precisaria de um Caps. Às vezes é um caso de apenas de frequentar o AAA, por exemplo”, comenta a coordenadora da Saúde Mental.

Sobre o trabalho desenvolvido em um Caps, a terapeuta ocupacional ressalta que, erroneamente, as pessoas dizem que “atrás da violência está a droga”. Mas, segundo ela, atrás da violência está o sujeito e quase ninguém se atenta para isto. “Olha-se a questão da droga, o delito cometido e não se enxerga o sujeito – o que o levou a tal ato e qual a demanda dele. Sabemos que algo está errado e que ele não está sabendo lidar”, observa.

Sem previsão

Por meio da assessoria de comunicação da prefeitura, o prefeito Maurílio Peloso (PDT) disse que várias pessoas, inclusive membros da equipe que trabalham no Caps/Alfenas, já mencionaram a importância do Caps AD. O prefeito afirmou reconhecer a importância, mas, por enquanto, “em função da situação financeira do município, não há projetos para a implantação do Caps AD, ao menos este ano”.

O que é o Caps AD

O Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas é um serviço especializado em saúde mental que atende pessoas com problemas de álcool e outras drogas. O órgão oferece atendimento à população, realiza o acompanhamento clínico, e a reinserção social dos usuários pelo acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários. Estes centros também atendem aos usuários em seus momentos de crise, podendo oferecer acolhimento noturno por um período curto de dias.

O Caps AD apoia usuários e famílias na busca de independência e responsabilidade para com seu tratamento. Os projetos desses serviços, muitas vezes, ultrapassam a própria estrutura física, em busca da rede de suporte social, que possam garantir o sucesso de suas ações, preocupando-se com a pessoa, sua história, sua cultura e sua vida cotidiana. Dispõe de equipe multiprofissional composta por médico psiquiatra, clínico geral, psicólogos, assistentes sociais dentre outros.

O serviço do Caps AD é a porta de entrada do paciente dependente de álcool e drogas no SUS. O objetivo da iniciativa é evitar a internação e o isolamento social do dependente químico. É importante ressaltar que apenas são atendidos os pacientes que buscam ajuda, já que não há internação ou qualquer outro procedimento contra a vontade do dependente.

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